cronica inspirada em nemo-in-slumberland

Pássaro de pedra

Autor: Gabriel Lesz

Quando foi a última vez em que se sentira assim, mergulhado num misto de alegria, fogo e asas ganhando os céus? Puxou a memória pelo braço, mas esta correu para longe, deixando-o sozinho com a dúvida, aliás, dúvidas, múltiplas, tantas quanto as pessoas que ele poderia ter sido e não chegou a ser.

Junto das chamas e da sensação de vida ganha, crescia a certeza de um sol guardado dentro do peito, a nunca mais se esgotar, afinal, não é assim a felicidade desgovernada, sem eira, beira ou fronteira?

Também havia o medo.

Na esteira da luz, uma sombra receosa permitia-se germinar sem pressa. Dela vinham as lembranças, não de prazeres passados, mas do que não dera certo. Injustiças com pessoas que amara e cujo nome já havia até esquecido. Decisões tomadas, sobre as quais ainda pairava uma fuligem de incerteza.

Fazia pouco mais de um mês que a tinha conhecido, e daí a origem do fogo, das asas, de uma melodia singular, semelhante às das outras vezes, e mesmo assim única. Como seria a partir dali?

A vertigem do voo, de descobrir-se repentinamente nas alturas e só então olhar para baixo, o atingia de vez em quando. O temor movimentava-se em vagas. Mais uma vez a dúvida.

Seu paraíso era inconstante, sujeito ao caleidoscópio das emoções possíveis. Às vezes ganhava altitude, pouco depois despencava. Sentia-se um pássaro de pedra. Uma criatura estranha e inexistente que, contra todas as possibilidades, adejava.

Talvez ela também tivesse essa perspectiva de si própria e eles fossem parecidos, planando na mesma direção. Quem sabe pertencessem a espécies diferentes, incompatíveis.

Sempre a dúvida.

De novo perdeu a rota. Acima e abaixo não significavam mais nada, e em algum ponto entre a radiância e o amedrontamento estava o objeto de sua busca. No coração da incerteza, o caminho.

Assim ele foi, em um céu tão estranho quanto belo. Assim voou, entre amores passados e futuros. O presente estava ali e continuaria, enquanto ele se permitisse voar. Não havia segurança. A qualquer momento, sol ou tempestade. Teria de ir.

Decidido, ganhou um plano a mais do firmamento, sem fazer acordos com dores antigas e culpas fantasmagóricas. O que viesse, enfrentaria. O preço seria pago.

Avançou. Como se aquele amor fosse o último.

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