Camilla Duncan em foto de Gabriel Munhoz

Chegadas e partida

Camilla Duncan

Jovem, sedento de vida, Juvenal apreciava pisar na areia quente da praia. E assim o fazia, todas as tardes de novembro, com permissão de sua mãe. Brevemente, removia os chinelos, a fim de aproveitar todas as sensações do percurso.

Sua mãe, dona Hermínia, há muito já pensava na proximidade do Natal, das festas de fim de ano. Preocupada se, mais uma vez, sua ceia seria farta apenas de peixe! Por sua vez, Juvenal, caminhava naquela imensa praia, sonhando com seus brinquedos mágicos, trazidos pelo Papai Noel!

O responsável pela mesa farta e pela magia dos presentes era o seu Florindo- o pescador mais experiente e habilidoso da região, também pai de Juvenal.  Todos os dias, preparava com esmero, a isca e o instrumento de pesca e saia tão cedo, que jamais pronunciou um “bom dia” ao filho.

Esse desencontro de rotinas motivava Juvenal a esperar ansioso o retorno do pai! Ao findar da tarde, sentava-se próximo à beira do mar, contando conchinhas, até avistar o barco Guerreiro – companheiro inseparável de seu pai – e o esperava com sorriso de saudades.

Princípio de dezembro, Juvenal já fizera a lista de promessas e pedidos para o bom velhinho, dona Hermínia já podia sentir o cheiro do peru recheado, os vizinhos cantarolavam músicas natalinas. Os enfeites empoeirados já haviam saído do armário e a esperança de um novo ano aguardava sua chegada…

Assim como Juvenal, que em um final de tarde como qualquer outro, ao olhar para o horizonte, só via despontar a lua, nem sinal do velho Guerreiro. Foi a tarde mais longa de sua vida e a noite mais escura. O garoto pressentia que o “boa noite” de seu pai, agora fora destinado a Iemanjá- Rainha do mar.

 

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