Céu de Baunilha – Giancarlo Carvalho em foto de Jorge Almeida

Céu de baunilha
Giancarlo Carvalho – 12/11/2019 – Oficina Santa Sede – Módulo Mosaico

Naquele canto de mundo há um tempo momentâneo, onde o improvável e o possível caminham próximos, cada qual na sua calçada, esperando o sinal para cruzar a rua. Talvez se resvalem na faixa, talvez deem um forte encontrão, talvez nada disso. Neste lugar, o céu incomum tem cor de baunilha, acolhedor como bebida quente, e o mar, vigoroso, transborda um azul forte, quase chumbo. No seu encontro, delimitam um horizonte retilíneo, sem barcos nem velas, mas bonito em sua perspectiva. Uma brisa friorenta dança no píer, que avança mar adentro como uma pequena península. Ondas batem nos pilares e acarpetam de água salgada o piso de sucupira resiliente. Um palco, um refúgio, um sossego. Um desejo escondido, uma incitação: um desafio encravado no espaço onde o casual acontece sob luzes tímidas, amarelas, em postes de média luz, imponentes e imemoriais. O acendedor já não existe, a energia vem de outro provedor, mas a rotina é a mesma: a sobretarde da noite acende a chama, a aurora do dia apaga a luz. Neste arrebol, cores, desejos e odores se espalham pelos bancos, recostados nas laterais. Ali, todos os sentidos são bem-vindos. É só chegar.

Primeiro vem o homem já idoso, que há muito perdeu a audição e há pouco perdeu o amor de uma vida. Sem filhos, só têm momentos. E, neste, registra o próprio rosto numa foto desnecessária: ele, as lágrimas, e o plúmbeo mar. Chega a jovem que nunca falou, mas que, com gestos precisos, exprime qualquer palavra ou emoção. Desalegre, ela agora não dá sinais, e se cala no próprio abraço, lembrando do pai que se foi numa saudade muda e sem fim. Também chega o moço, pobre moço de cabeça baixa, conduzido pelo diligente melhor amigo até um banco. Abandonado pela alma gêmea, ele afoga as mágoas em café morno e baixa estima. Entre aus e ais, o pastor alemão lhe oferece um constante olhar piedoso e lambidas esporádicas. Ele não enxerga, mas reconhece o afago visível, que abranda a perda doída, e a friagem.

Quatro vidas, vários caminhos, lado a lado e distantes naquele improvável e possível canto de mundo, esperando o sinal abrir, ou a cortina fechar. Luz, céu, horizonte e brisa atiçam a onda, que bate na amurada e respinga. O cão late, a jovem o acaricia, a guia impede a saída do homem, que esbarra e derruba o copo meio vazio. O moço atenua. Naquele mundo pequeno e momentâneo, trocam-se desculpas e sorrisos. Do outro lado da rua tem um café. Alguém convida. À mesa, se compartilham sentidos. Açúcar e adoçante? Tem. Mas sugere-se algo diferente. Baunilha, por exemplo. Deixa tudo tão ou mais gostoso, e basta apenas uma gotinha.

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