Dora Almeida em foto de Gabriel Munhoz

Até breve, meu amor

Dora Almeida

Nunca mais consegui parar de pensar em ti. Teu corpo bem feito, tuas longas pernas, o cabelo balançando ao ritmo da corrida de todas as tardes. Te observei durante muito tempo, tentei me aproximar, e tu, nada. Mal me olhavas e, sorrindo, ias encontrar outros rapazes. Sarados, musculosos, bonitos. Bem diferentes de mim.

– Vagabunda! Oferecida! Mas ainda vais ser minha. Eu sei esperar.

Naquele dia, estavas só. Por milagre, me acenaste. Sorri de volta, conversamos. Peguei tua mão e fomos para dentro do parque. Tentaste te desvencilhar, mas eu fui mais forte. Ninguém ouviu teus gritos. Deitada no chão no chão, cobri tua boca, sufoquei tua voz – Não grita, não vai te acontecer nada. Vais encontrar o Senhor e serás perdoada de teus todos os pecados.

Rapidamente te despi, cheio de desejo, excitado com teu medo, teu olhar de pavor. O sexo nunca foi tão prazeroso como dessa vez. Saciado, apertei tua garganta. Ainda te debateste um pouco, mas logo ficaste imóvel. Tirei meu rosário do pescoço e coloquei-o no teu. – Agora estás em paz, livre dos teus pecados. Perdoada.

Cobri teu corpo inerte com galhos de árvores, algumas folhas e fui embora.

No dia seguinte, a mãe me olhou e deu falta do rosário. Falei que tinha perdido.

– É que deu no rádio que mataram uma moça no parque esta noite. E ela tinha um rosário no pescoço. Será o teu que ela encontrou antes de ser morta?

O povo ficou chocado com o que acontecera. Colocaram uma cruz no local e o transformaram num altar cheio de oferendas. E o tempo foi passando, o caso caindo no esquecimento. Pouca gente ainda falava no crime.

Mas hoje a mãe resmungou:

– A polícia anda fazendo perguntas. Procuram um homem que foi visto usando um rosário no pescoço no dia em que aquela moça foi assassinada.

Peguei o casaco e fui até o parque. Fazia frio, pouca gente correndo por ali. O altar ao redor da cruz transformara-se num depósito de lixo. Muito triste.

– Não te preocupes, meu amor. Vou limpar um pouco este lugar antes deles virem. Estão bem perto. Não entendem que te tirei deste mundo para te salvar. É chegada a hora de ir ao teu encontro. Ouves os passos? São eles. Mas o revólver já está na minha mão. Até breve, meu amor! Vamos ser muito felizes. Por toda a eternidade.

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2 comentários em “Dora Almeida em foto de Gabriel Munhoz”

  1. Muito bom Dora, suscinto mas intenso. As patologias do afeto são pouco faladas e tratadas, e chegam ao seu extremo, homicídio seguido de suicídio. A sexualidade quando não vivida na sua integralidade vai produzindo efeitos nefastos na vida humana.

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