Nove cadeiras ocupadas. Doze fotografias impressas e uma mesa de bar. Comidas para degustar regadas à tônica, mineral e cerveja, harmonizadas com uma saborosa conversa. Uma imagem em preto e branco, registra três cabides plásticos sustentando três vestidos de criança. Vestidos pendurados na cerca de uma suposta casa levada pela enchente. Elaborados. Costurados e bordados. Talvez para serem usados em ocasiões especiais. Tempos difíceis de vidas frágeis sendo interrompidas sem saber para onde foram.
As memórias percorrem a mesa do bar. As palavras chegam aos poucos e vão ocupando seu espaço. O som da música ilustra cada momento. Só ouve quem consegue dar uma pausa para se escutar.
Homens e mulheres não se conhecem, se conectam na mesma roda, naquela mesa de madeira jatobá. Sede de palavras. Imagens e lembranças tomam conta.
Penso de quem eram os corpos que ocuparam os três vestidos. E as vidas entrelaçadas naquela casa, ainda sustentam a cerca?
A água lamacenta levou os corpos para outro lugar. Não havia mesa, não havia cama, nem geladeira ou fogão. A casa de eucalipto foi embora com a corrente. Ficaram as lembranças e os vestidos, além dos corpos na mesa do bar.
Havia uma história e uma união. Um pai que trabalhou muito, amou sua mulher e desejou construir ali sua casa, assim como sua família.
Contam que a água chegou enquanto ele dormia. Não quis avisar. Chegou sorrateira, com muita força para ninguém lhe conter. Levou quase tudo daquele bairro.
Na mesma mesa do bar as memórias retornam e se apresentam, prontas para desfilar. Palavras saem da boca. Registradas no papel, listam a folha reacendendo lembranças. Não era só uma casa. Havia história e a luz estava acesa.
Falava-se sobre tributos e a primeira fotografia do cardápio remetia às três crianças.
O final poderia ser outro porque a escrita permite nascer de novo.
Ali naquela casa, sobre aquela mesa, conheceu a morte em vida.

