Em vez disso

Não tem nada por aqui, pode procurar pelos meus bolsos, abrir as gavetas, desbloquear meu celular. Procura também na conta bancária, na pasta do trabalho, nos arquivos antigos e na mesa do escritório. Pode tirar tudo do lugar e minuciosamente virar a noite em busca de respostas. Não perde  tempo, não tem nada por aqui.

Abre o carro, calcula a quantidade de gasolina, os quilômetros rodados, o Google maps. Depois entra no Instragram, abre todas as conversas, olha todos os adicionados, vê se existem novos velhos rostos por ali. Depois, eu posso rir e repetir mais uma vez. Não tem nada por aqui.

Abre as janelas, vê se existe alguém parado olhando ao abrir, e se tem serenata, e se tem o registro na portaria de quem espero para jantar  nos finais de semana. Pesquisa alguma casa de campo, ou um apartamento na praia para duas pessoas. E a fatura do cartão. Confere as notas fiscais sem espumantes, ou motel, ou  lingerie comprada no crédito. Não tem nada por aqui.

Vê se eu voltei para a jogar tênis, se ando tomando suplementos, se durmo demais ou demoro muito no banho. Confere o e-mail, as senhas, os passos, os gestos. percebe se alguma coisa mudou e se uso palavras novas ou faço referências a filmes velhos. Confere meus batimentos, percebe se oscilam. Registre os suspiros, as queixas, os murmúrios e, por fim, observe  quando caem as lágrimas.

Se ainda assim não te contentas, coloca meus óculos, tenta ver a vida pelas minhas lentes e assume meus dias, vê se consegue dar conta de muito mais do que eu deveria. Vê se exausta  ainda encontra um tempo, segundos do dia, para ser além do que a vida repetidamente me exige. Esforce-se para encontrar uma culpa, mas não esqueça: Não tem nada por aqui. É só deserto.

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