Cálculos

Tenho gosto por fotos, registros da vida passando pelos nossos olhos. O nosso olhar incidindo pelo ângulo, entendendo o foco, mirando um alvo, pensando em guardar na nuvem, fazer um drive, compartilhar entre os amigos. Registros contam as coisas como elas são. Sem o charme do texto, trabalham com a realidade, nos deixam expostos, as vezes até nus.

Pode ser por isso que fotografar é mais íntimo que confidências, declarações de amor, flores de plástico e chocolates ou a ponta da caneta em uma agenda. A história conta-se por si ao olhar pronfundo nos detalhes de uma imagem. Eramos nós, ali! O que pedimos no restaurante, o que bebemos antes de jantar, os nossos sorrisos depois de falar um monte de bobagens e a sensanção de que pouco importa o resto. “Tu, tira uma foto minha? Agora outra asssim. Segurando a taça. E no fim da festa, com os cabelos desalinhados cantando alguma música de bar? Me registra na tua vida? Não deixa eu esquecer que eu estava aqui. Quero deixar lembranças.

Quando eu acho que a vida tá pesada, recorro a essas saudades e elas são provas de muitas coisas. De que os anos pesam em meu rosto, do tempo em que nos conhecemos, de quando em que estava meio magra, de quando eu estava meio gorda. De todos os tipos de cabelo. De uma roupa que eu jamais voltei a usar porque naquela foto vi que não era uma boa. E todos as minhas críticas sobre mim de desmontam quando eu sorrio pensando. Olha ai! Eu fui feliz nesse dia!

Perdoo todos as minhas caretas e admito que eu não sou sempre bonita. E quem é? Só os apaixonados e as crianças pequenas. E quem sorri com a boca bem aberta e com os olhos fechados também. E quem olha profundo dentro do zoom sem medo também. A coragem se registra, tal como os passeios, as viagens, e os amores. A vida é brincadeira, é quinta série. E um dedo do meio no trânsito, é um calorzinho na nuca e também é frustração. Hoje queria uma foto linda, mas acordo cada dia com mais olheiras do que ontem e não pretendo fazer nada para mudar isso. A vida não para.

Minhas fotos antigas que eu julgava ruim, hoje me monstram uma menina linda. Ja fui assim. Agora sou outra, bem diferente dos vinte, bem mais segura com quarenta. É que eu não tô nem ai. E isso não é descaso, nem desleixo. Bem sabem das minhas vaidades, dos desfiles de sapatos vermelhos pelo bar, da pressa pela marquinha de sol e da preocupação com o vestido para o sarau. Trata-se de não querer perder o foco nas pequenas coisas boas, nas alegrias cotidianas, nas imagens de um tempo em que, com sorte, terei sessenta e, nesta mesma foto antiga, direi: Olha só, com quarenta e três, uma guria!

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