Pro fundo

Foram
estendidas assim.

 Sim, eu compreendo a impressão não tão boa. O
que está gasto e feio deve ser escondido, o que está alinhado e limpo deve ser
estendido. No varal da minha vó, as roupas gastas eram colocadas no pátio da
casa, nos fundos. Neste mesmo lugar deveriam secar as roupas íntimas. Onde
ninguém pudesse ver, só os de casa. Foi assim que aprendi.

As
roupas melhores até podiam ser expostas em uma parte lateral da garagem. Os  nossos casacos de pele pendurados tomavam um
ar para tirar o cheiro de armário. Os vestidos de prenda, as roupas de inverno,
as saias de armação dançavam com o vento. Um varal colorido e bailante cheio de
bordados que eram reparados na máquina de costura. Esperando o dia. Esperando
um dia.

Minha
mãe tem um pequeno espaço para as roupas, ela sobe em um banco, na ponta dos
pés, para alcançar o varal fixado na área de serviço do apartamento. As
calcinhas seguem para o lado de dentro, ficam mais protegidas. Justifica
contando que uma vez eu peguei um berne, e que o bicho estava em uma meia que quarava
no lado do avesso. Berne é bicheira. Eu tive dois. Um no meio dos dedos do pé
direito, o outro na cabeça. Não lembro, só sei das cicatrizes.

Eu
não sei lavar roupas tão bem, mas sou boa com água, gosto de encher os baldes,
de esfregar as roupas no tanque e cantar alguma música antiga ou assoviar
solita. Ocupo a minha cabeça quando os pensamentos são ruins, deixo-os correrem
como na torneira.  Minhas mãos, que já têm
tantas marcas, ficam trêmulas quando torcem as peças mais pesadas e se cansam
tão fácil, mas não querem parar de existir. E existir é um varal de coisas
nossas, boas e ruins. Eu quero que as feias e sujas estejam também ai,
expostas.

Foram
estendidas assim.

 

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