Ananyr Porto Fajardo em foto de Andréa Steiner

O que os olhos não veem, o coração sente

Ananyr Porto Fajardo

Inverno, noite escura, as cores ficaram para depois.

O silêncio pesava entre as frestas; nada se via, mas a vida estava lá.

A saudade enchia a casa de causos, odores e sabores de outrora.

Recordava os tempos em que a lareira iluminava os sonhos até a última fagulha, trazendo em seguida lampejos do dia a labutar, enquanto a neblina tentava prolongar a noite.

O fogão a lenha aquecia o corpo e mantinha a preguiça bem-comportada, enquanto o vapor da chaleira buscava o café coado, chiando.

Cortina de voil encardida, janela embaçada, já não sabia se era a névoa lá fora ou seus olhos.

Entre as gotas da bruma, o horizonte se aproximava da casa, trazendo a distância para perto dos pés cansados. O sol forçava passagem entre o nevoeiro e a plantação despertava.

Na geada, o campo se estendia, com raios de frio enfeitando o pasto resistente à inclemência.

Lidava na casa e cuidava dos bichos e, de vez em quando, sobrava um afago meio áspero para Pitu e Minu, um vira-lata manquinho e uma gata grisalha que se aconchegavam na cozinha.

À tardinha, um último mate doce. O pelego, o tricô, a conversa quieta e o olhar esperto antes de se achegarem para dormir. Hora de deitar-se ao som do rádio afônico.

O vento chegava uivando, a chicotear a cerração que chorava.

Inverno, noite escura, sem cores.

Até amanhã.

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