Tom Saldanha em foto de Lia Zanini

Além-mar

Tom Saldanha

Que mistérios guardam os gatos? Um recente trailer de novela estampa em várias tomadas um felino preto, que recebe das lentes um tratamento que evidencia o caráter enigmático do que virá.

Quando jovem, convivi com um que minha mãe adorava. Batizado de Larucho pelo meu padrasto português, este era o mesmo nome do gato que deixara em Portugal, aos 17 anos. Não viveu o suficiente para rever a família e o gato. O nosso Larucho, entretanto, tratou de confortar-lhe a memória. O português dizia que era igual ao seu. Minha mãe, noveleira ao extremo, já disse que acompanhará a novela por causa do gato, preto e com o mesmo porte e olhar. Acho que assistiria mesmo que fosse um tamanduá-bandeira.

Os olhos daquele gato, como de muitos outros, eram tão fortes, e diziam tanto, que era fácil conversar com ele. Não eram monólogos; eram diálogos onde aqueles olhos falavam alto. Seu discurso era mais eloqüente que o meu. Não só porque o receio de ser pego falando com um gato determinasse meu tom mais baixo. É que eu ainda não possuía repertório para competir com aquele olhar. E não sei se hoje tenho.

Abrigamos um ou outro cachorro. Agora me dou conta que sempre foram cadelas, e uma até conviveu muito bem com ele. Gato? Só aquele.

Como todos os bichanos, ele determinava suas relações. Melhor que não se aproximasse quem não tivesse sua simpatia. Não aceitava carinho: se quisesse, pedia. No inverno, as válvulas da TV de tubo forneciam o aconchego para que ele permanecesse a maior parte do tempo aquecido sobre ela.

O apartamento onde morávamos, no segundo andar de um prédio no centro de Porto Alegre, permitia que ele se refestelasse no peitoril das janelas, de acordo com a posição do sol. Mais de uma vez errou o salto, caindo na rua. Inevitavelmente, se escondia no bar que havia no térreo do nosso prédio, atrás da pilha de garrafões de vinho. Era tarefa minha ou do meu irmão descer correndo e retirar todos os vasilhames que formavam uma meia-pirâmide encostada na parede. Só assim, era possível o resgate. Apesar dos sustos, sempre sobreviveu. A memória diz que não chegaram a sete, o que dá chance à confirmação do mito, já que morreu de velho, muito tempo depois.

Minha mãe brincava com a origem de seu nome, dizendo que realmente era um gato português: não sabia nem pular direito.

Ainda hoje, ao fixar os olhos de um gato preto, peço, em silêncio, notícias de além-mar.

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