Rubem Penz em foto de Anelise Barra Ferreira

A louvar quem vem depois

Rubem Penz

Há quem coma antes, há quem coma durante ou coma depois. Antes, engolem aqueles que são servidos – e isso começa cedo, no alvorecer da infância. Mamãe de prontidão dá o peito, a sopa, serve o prato. Corta o bibe, assopra se está quente, devolve à panela caso tenha esfriado. Reinado que pode durar uns anos ou muitos deles. Ou todos. Há quem perpetue a infância alimentar, comprada a calorias de ouro. Pagam, são servidos.

Para aqueles cujo destino serviu porções menos generosas de privilégios, existe o durante. Pode soar estranho eu destacar os durantes, então é preciso esclarecer: existe uma dose de luxo em poder manusear garfos e facas quando se quer. Seja ela preparada por si, seja por outro, almoçar na hora do almoço, tomar café e jantar na hora planejada nem sempre é um conforto que se possa ter. Não, não é por falta de comida – me refiro ao domínio do tempo.

Igual a todos, passei alguns anos como um comensal prioritário e vivo, na quase totalidade dos dias, como um durante. Minha porção de regalia. Os dias de depois foram e são íntimos: a servir filhos e amores. Oferendas, não sacrifícios.

Oferendas, sacrifícios… Tudo isso lembra trabalho, né? Eis o fardo dos que, ou aos quais, só resta preterir-se: ganham o pão dormido dos dias e noites a servirem refeições. À mesa, os outros com suas prioridades, seus tempos respeitados, apetites, sedes. Eles – nós? – empurram os pratos sujos porque logo virão os depois. Antes se cozinha. Durante se serve, recolhe-se, é preciso lavar. Depois haverá um par de talheres e um prato disposto por e para si.

Há dignidade, amor e vocação no trabalho de servir refeições. Um sacerdócio, uma profissão nobre. Exalto o brio pois evito que esta crônica traga por sobremesa o azedo sabor dos rancores macerados no pilão do ódio. O texto, com sorte, servirá para apenas olharmos com respeito e consideração às mulheres e homens que estão imbuídos de nos atender antes e durante as refeições, atenderem-se depois.

O afago da saciedade precisa ser retribuído, ao menos, com respeito. Ou melhor, com muita gratidão.

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