A Fortaleza e o Forte

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A voz era esganiçada, e a pegou de surpresa. Tinha chegado há pouco na esquina, onde a hesitação criada pelo contexto breve a transportou para uma espécie de limbo introspectivo, recôndito, que aflorou, sabe-se lá porquê.

Hesitar, inclusive, nunca foi seu forte, pelo contrário. Menina ainda, tímida, de poucas palavras e pais complacentes, ela enfrentava a tia cafona, que a cobrava por usar um vestido “sexy demais para a idade”. Sempre usando de argumentação e ironia, nunca de rudeza, justificava seus atos rebeldes, que iam desde roubar o carro do pai e passear com as amigas até matar a aula para namorar o único rapaz que, com cortesia, a conquistou. Depois disso, dizem, apagou a timidez, soltou a voz e a tagarelice. A moça muito falante participou de protestos por direitos, levantou bandeiras, experimentou e aprendeu de tudo um pouco, até se tornar uma escritora de sucesso, completa de palavras. Mulher feita, perdeu os pais, alguns amigos, perdeu o amado. Ganhou batalhas e sofreu revezes, mas resistiu, mesmo após o acidente que a colocara naquela cadeira, agora companheira de velhice.

Com ela, e somente ela, decidiu sair escrevendo mundo afora, conhecendo lugares como o prédio cheio de aberturas em cuja sombra agora se protegia, nesta cidade de belo nome. Leu em algum lugar que a construção, que tivera muitas designações e propósitos, de palácio a memorial, de províncias a governos, quase foi demolida, veja só. Hoje restaurada, perdura como uma fortaleza, em forma, conteúdo e obstinação.

E ali estava ela, mais uma vez em confronto com um desnível na calçada, um imperfeito degrau, uma ladeira íngreme o suficiente. Nada de novo. No vértice diante do prédio, uma placa de trânsito indicava: proibido seguir nesta direção. Pareceu-lhe determinar, também, que não era permitido seguir para o alto. É proibido voar? – sorriu, já iniciando a descida. Foi quando ouviu a pergunta. E aceitou. Afinal, não se recusa a cortesia de um cavalheiro, mesmo que este use calças curtas e tenha, no máximo, uns quinze anos de idade. Metros à frente, conduzida pelo novo amigo, entrou no Forte, tagarelando.

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