Era para ser um momento banal de um dia como outro qualquer.
Ele sentiu vontade de tomar um café à tarde e pegou o carro. Nada de extraordinário: apenas um café, acompanhado de um pedaço de bolo ou de um croissant, quem sabe, uma dessas pequenas alegrias que a vida permite. Estacionou do outro lado da rua, em frente à cafeteria, e, naquele exato momento, a chuva começou a cair. O que era uma trivialidade transformou-se, diante do para-brisa salpicado de gotas, em um imbróglio.
Ele não gostava de se molhar. Havia quem encontrasse graça e poesia na chuva, a ponto de caminhar de braços abertos e pular nas poças. Ele não (*). A água entrando pelos sapatos, a roupa grudada no corpo, o cabelo desarrumado. Valeria a pena sair? Ou esperar? A prudência recomendava permanecer no carro. O café não fecharia tão cedo, a chuva, claro, não cessaria por sua causa. Desistir, e deixar o mundo seguir seu rumo como vinha fazendo havia milênios, com ou sem sua participação?
Dentro do carro sentia-se em paz: o banco confortável, o ar-condicionado na temperatura ideal, a música baixa, o celular ao alcance da mão. Do lado de fora, a chuva, inconveniente, insistia em perturbar seu mundinho e caía cada vez mais forte. Poderia se arriscar, dar uma corrida até lá, mas não. E se pegasse uma gripe? E se, ao entrar no café, deixasse marcas no chão, respingasse água em alguém ou provocasse o franzir de sobrancelhas de algum cliente menos paciente? Uma discussão poderia começar. Argumentos, cobranças. Seria desagradável. Havia situações que dispensavam a participação de quem preferia não se envolver. Ele chamava isso de equilíbrio.
Evitar a chuva, porém, era café pequeno. O equilíbrio dele exigia mais. Não intervir, não provocar, não arriscar amizades ou reputações. Lamentar qualquer polarização (mesmo sem avaliar se os polos eram equivalentes). Se ateassem fogo a uma casa, pedir cautela (era preciso ouvir também o lado incendiário). Não sujar as mãos: lavá-las. Lá fora a chuva cai, e são muitos os desprotegidos. A neutralidade parece sabedoria, mas só aos olhos de quem acha que não sofrerá as consequências.
Ele olhou mais uma vez para a cafeteria. Estava lotada. Agora? Enfrentar alguns pingos, um pouco de lama… Sim, talvez um resfriado. Mas o esforço ainda parecia desproporcional. Afinal, era apenas uma xícara de café com bolo. Ficaria para outra ocasião. Talvez numa cafeteria mais perto, dentro da sua zona de conforto. Noutro dia, de preferência ensolarado — ou neutro. Um dia banal.
Decidido, ligou o motor. Sem olhar para os lados, fez a manobra. Nem viu quando o caminhão desgovernado que descia a rua passou por cima de seu carro.
(*) O filho também não!

