Vendaval

Tudo o que nós somos é poeira ao vento – Kansas

A primeira peça a sumir do varal era a mais leve. Uma blusa clara, quase nada de cor, que o vento vindo de longe carregou. Ninguém ali ouviu, nem deu falta. Coisa de vento mesmo, normal, que vem e que vai, que leva sem a gente ver. Mas esse vento parecia diferente. Resmungava um som estranho, trazia um frio que não condizia com a estação e parecia carregar um presságio, uma notícia inesperada e mal contada.

Ele voltou no dia seguinte. E no outro. Cada vez mais forte, trazia murmúrios que iam aumentando, incomodando como pedaços de conversa cheios de palavras desconhecidas e fora de contexto: fronteira, tropa, ameaça, conflito. A família, ali, parou para ouvir. E viu que, a cada rajada, mais uma roupa desaparecia do varal. A calça listrada, o pano branco, a fronha bordada pela avó. O varal foi se esvaziando, emagrecendo, despindo-se, à força, daquilo que o cobria de normalidade. Um dia o vento gritou alto feito sirene, esgoelando notícias que chegavam também no velho rádio que, antes aposentado, voltou à ativa. Resolveram ir embora deixando o vento, o varal, o gado, o céu que ainda tinha azul. Escaparam por um triz.

Logo depois da partida, as montanhas lá ao fundo, antes verdes e orgulhosas, começaram a se esconder atrás de uma bruma que não era neblina. Ele, o próprio horizonte, parecia apagado. As árvores contiveram o fôlego e baixaram os galhos por conta desse vento ainda mais forte, irreprimível, pesado como aquela notícia ruim que um dia chega. Os animais sentiram: o gado se afastou para os cantos mais distantes, as galinhas pararam de cacarejar e o cachorro sem nome, desnorteado, uivava registrando medo. O céu azul que a família deixou, deixou de ser… Virou cinza, mas não daqueles que anunciam chuva; era um cinza de outra coisa. O vento, tornado impiedoso, foi levando tudo: a última peça de roupa, a derradeira árvore partida, o gado disperso. Ficou a relva seca, pisoteada pelas botinas e tanques que avançavam para além do latido choroso do cão que teimava em protestar.

Depois de dias, com quase tudo destruído, uma brisa chegou, também vinda de longe. Branda, murmurava que talvez, somente talvez, haveria uma pausa. A família voltou, mais por necessidade do que por esperança. Encontrou um pedaço de pano preso no arame torto, ossos de animais, um punhado de terra que viraria souvenir num pote de vidro, dois ou três quadros e só.

Não havia mais varal, nem verde, nem nada. Não havia, sobretudo, a fé de que esses prometidos novos ventos chegariam a tempo. Aos ouvidos daqueles excluídos, o turbilhão de ódio e desprezo que caía do céu continuaria indo e vindo, dia após dia. Mais arrogante, cruel e ruidoso, encobrindo qualquer promessa de paz que essa brisa, ou outra, pudesse sussurrar.

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