Tá lá o velho no canto, no fundo da feira. Eu o vejo nos sábados de manhã (não todos, mas muitos), quando cruzo a feira do bairro, no Largo Zumbi dos Palmares, na Avenida Loureiro da Silva. É uma espécie de expurgo, faço isso para ajudar a limpar os excessos da semana. Sem pressa, sem sacola na mão, sem lista na cabeça. E quase sempre lá está ele: um homem velho, magro, atrás de uma banca de frutas e verduras que imagino ser dele. Às vezes, ele cochila sentado entre os caixotes, mas basta alguém se aproximar para abrir os olhos e o sorriso. A fragilidade do corpo, da idade, era inteira e incontestável, e mesmo assim o sorriso parecia mais forte que qualquer coisa.
Numa dessas manhãs, dias atrás, parei diante dele pela primeira vez. Cumprimentei-o e ele respondeu com um aceno de mão, um aceno frágil e calejado. Comprei tomates, porque a plaquinha escrita à mão os anunciava a dez reais o quilo, um bom preço. Comprei bananas, que estavam com um amarelo bonito. Couve, cebola, pimentão… tudo subterfúgio para puxar conversa. Perguntei sua idade e ele respondeu com um número que eu já tinha imaginado. Soltei o tradicional “Não parece”, mesmo parecendo, e ele riu. Disse que se chamava Agenor, que sim, já era pra ter parado, que o papel da aposentadoria dizia que podia descansar mas que ele era teimoso, que o corpo e a mente o acordavam antes do despertador e o puxavam para a feira. Que fazia isso havia tanto tempo que nem se lembrava mais de quando começara. Que não pararia tão cedo.
Era evidente que queria conversar. E foi contando mais, entre um freguês e outro. Daquela banca saíram o leite, o sapato e os estudos dos filhos e filhas. Que deram netos, e os netos o visitavam ali, correndo entre as caixas, pedindo uva e bergamota. Falou da esposa, que vinha com ele nos primeiros anos, ajeitando as frutas e brigando porque ele dava brinde demais. “Se me dão bom dia com jeito de querer dar bom dia mesmo, eu gosto e dou mimo, ora.” Fazia pouco tempo que ela se fora, e a casa ficou quieta. “Aqui não”, disse, olhando à sua volta. “Aqui tem vida.” E ensacou um punhado de coentro para uma senhora baixinha que pechinchou bastante. Continuou. Falou da Dona Zilda, que comprou dele por trinta anos e levou sopa quando ele adoeceu, e de seu Raimundo, da banca ao lado, que virou compadre. Falou das feiras ruins, dos anos de chuva que alagaram a rua e estragaram a mercadoria, da enchente e das manhãs de sol em que a banca esvaziava antes das dez. Ensinou, sem parecer ensinar, que um tempo vem e outro vai, e que gostava desse tempo que passa de modo desigual e o surpreendia a cada dia de vida, a cada dia de feira. Quando me despedi, ele estendeu um saco cheio de limões e um maço de cheiro-verde. “Presente”, disse. “Você me deu um bom dia de verdade”. Segurei sua mão, agradeci e deixei-o seguir no seu trabalho.
Hoje, quando passo pela feira, não passo ao largo. Se tá lá o velho Agenor (e geralmente está), paro, cumprimento o amigo, batemos papo enquanto ele negocia, pesa, embrulha e recebe. Por vezes, confesso, fico à distância por minutos, esperando ele despertar do seu cochilo, só pra ver o momento exato em que ele abre os olhos e o sorriso ao mesmo tempo. Só isso vale por uma semana inteira.

