A leste das águas

Um ano e meio se passou. Lembrou-me uma antiga história. “E esteve o dilúvio quarenta dias sobre a terra, e cresceram as águas, e levantaram a arca, e ela se elevou sobre a terra.”

E sobre Porto Alegre choveu cinco vezes o que costumava chover. E talvez outro tanto serra acima. E outro tanto nos vales do Caí e do Taquari. 

E por um tempo o rio-estuário-lago retomou para si aquilo que os homens ditos civilizados lhe tinham tomado. 

E a paisagem, e a arquitetura, foi afogada. 

E veio o colapso. E muita gente fugiu. E muita gente se aterrorizou. Muita gente se traumatizou. Infelizmente houve gente que morreu.

A rodoviária, o aeroporto, o mercado, o paço, a usina que gerou eletricidade e depois cultura. Todos Inundados. Ou ilhados. 

E os carros deram lugar aos barcos. 

E as autoridades se escudaram no dilúvio, para desculpar sua inaptidão. 

E por um tempo o rio-estuário-lago retomou para si aquilo que os homens ditos civilizados lhe tinham tomado. 

E se tudo tivesse sido tomado? Ido embora o colonizador, o civilizado?…

Retornariam os povos originários? Dominariam? Se tornariam novamente senhores os guaranis, minuanos, charruas? Aos originários a terra original, sem males? 

Sobre Porto Alegre choveu cinco vezes o que costumava chover. E talvez outro tanto serra acima. E outro tanto nos vales do Caí e do Taquari.

Ilhada ficou a usina. A usina do teatro e da poesia. 

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