O filme O beijo no asfalto (1981), baseado na peça de Nelson Rodrigues, me levou a várias reflexões. De questões políticas e sociais até meus perrengues da juventude.
Infelizmente, ainda é muito atual o preconceito e a capacidade de destruir reputações com informações falsas. Mudam as mídias, usam-se palavras novas, como fake news, mas a voracidade com que se lança um boato, para desviar a atenção do que realmente interessa, segue igual. Lamentável ver como a vida se repete no que há de pior. Encobrir crimes e desmandos de autoridades vale qualquer preço.
O que me encheu os olhos de passado e familiaridade foram os objetos da época. Verdadeira sessão nostalgia. Os carros, nosso glorioso fusca e tantos outros, de uma época que eu vi e vivi. A pequena televisão de tubo, em preto e branco na sala de estar. Tempos em que só havia um aparelho por residência, e esse reinava absoluto no cômodo principal. Móveis, em sua maioria, duráveis e de madeira. Casas sem cercas ou grades, portas para a rua. Nada de muros altos, nada de condomínios. A vida acontecia na calçada.
A parte nada agradável é lembrar do quanto se fumava. Mulheres fumavam, achando que isso era sinal de poder. Começava-se muito jovem. E eu era exatamente assim, uma jovem aspirante a mulher independente, que baforava a fumaça do cigarro com toda a presunção da mocidade. Como se aquilo me tornasse mais mulher, independente e poderosa. Mal sabia eu que os estudos científicos já indicavam todos os malefícios que o meu falso empoderamento causava. Tudo muito velado. O capitalismo sempre falando mais alto.
O filme me fez lembrar também do tempo em que ficava esperando o ônibus no ponto, para trabalhar ou estudar. Era normal, naquela época, que jovens de classe média baixa, como eu, utilizassem o precário transporte público. Alguns tinham o privilégio de serem carregados pelos pais em seus carros velhos. Não era meu caso. Comparando aos meus dias atuais, posso dizer que eram tempos de pobreza. E, para mim, a pior parte da pobreza era esperar o ônibus por tempo indefinido, tomando chuva por cima e por baixo, arriscando ele não parar no ponto.
Quando cheio, tinha que se esgueirar por entre pessoas estranhas, fétidas pelo trabalho árduo de um dia inteiro, tentando chegar à porta para descer. Às vezes eu passava, mas a mochila trancava. E, sempre, havia homens descarados, que passavam se esfregando na gente de propósito. Ninguém se importava com nosso desconforto. Alguns até achavam graça. Em minha defesa, criei um método infalível: carregava um alfinete no bolso e não hesitava em fincá-lo quando percebia a má intenção.
Quanto ao filme, acho que posso dar spoiler, já que é muito antigo, inclusive com refilmagem em 2018. A verdade é que, no final das contas, toda a família era apaixonada pelo pobre Arandir. Que azar, ele só queria ser feliz com sua Selminha.
Muito Rodrigueano!

