O menino Joaquim não estava se sentindo bem naquela manhã de segunda-feira. Durante a curta viagem para a escola, sentia-se tonto e com fortes dores na barriga. Do alto dos seus tenros sete anos, acreditava que alguma coisa no almoço dominical estava lhe incomodando.
Na chegada, como de costume, dirigiu-se ao imenso dormitório dos meninos onde repousou a mochila na cama nº 157, seu pretenso escondedouro privado, e rapidamente separou os cadernos e o estojo para as classes do turno matutino que iniciaria com Matemática, que por sinal detestava, o que lhe conferiu mais tensão em decorrência da sensação de cólicas.
Mesmo não entendendo bulhufas das explicações que a irmã Gertrudes proferia, Joaquim suportou bem o primeiro quarto de hora até perceber que o iminente desastre anunciava-se. No seu limite, ergueu o braço requerendo sua ida ao sanitário ao que a austera freira negou de pronto : Agora não, Joaquim ! Acabaste de chegar, portanto, somente no intervalo !
Transcorridos mais quinze minutos, levantou a mão novamente e só o que teve de atenção foi o olhar carrancudo da professora. Sem pestanejar, saiu correndo para a salvação. Problema rapidamente resolvido, sua cabecinha já matutava o que estava por vir. Ao abrir a porta do banheiro deu de cara com a Madre Superiora Efigênia, com braços cruzados, pezinho batendo freneticamente no chão e com aquele olhar de botar medo no alto escalão da Gestapo. Grudou os fortes dedos em sua orelha e adentrou a sala de aula colocando-o no canto, de costas para a classe, bradando : Aqui Joaquim ! Até o intervalo !
Transcorrido o martírio, todos para o refeitório. Joaquim, convalescendo do imbróglio intestinal, optou por aceitar a sopa que as freiras da cozinha serviam. Quando chegou a vez das comidas sólidas, a regra era clara, ao estender a mão aberta sobre o prato, significava não desejar aquela comida … mas a sina dele não tinha terminado. Uma das irmãs, com a travessa de moranga pelando de quente, ignorou a pequenina mão espichada e virou uma generosa porção sobre ela. Joaquim demonstrou inacreditável esforço e coragem para não gritar, aguentou calado e engoliu sua aflição.
E assim, entre outras tantas, transcorreu o 3º ano primário no internato Stella Maris, em Viamão, nos anos 1960.
Joaquim aprendeu muito neste período. Sobre religião, regras, autoridade, abusos, etc. Talvez seu interesse por política, história, revoluções, lutas de classe e sociologia tenha
ali sido semeada. O espinhoso aprendizado revelou, anos mais tarde, os motivos pelos quais havia sido enviado para aquele campo de concentração de segunda à sábado.
A matemática, entretanto …

