Roupas sujas
Olhos negros
Cheiro de terra
Caminho largo
Ponte pensa
Lucas Limberti (Ritmia – o ritmo da vida – 2015)
Ponte principia com pedreiros pegando pedras, plantando pedaços com pás e pitacos de pessoas poderosas que, do palanque, proferem palavras pífias – em prol de paisagem de paredes ou prédios. Na ponte que pulsa e pensa, pessoas proseiam no Paquistão, no Piauí, em Pequim. ou em Santana da Ponte Pensa. Poeira já foi pedra e se espalha em prosa.
Disse pedreiro? Figura quase em extinção, já não coloca tijolo com tijolo num desenho lógico ou, em outro verso, mágico. São as gruas que levam o material, enchem lajes e a ponte aparece.
Pessoas, essas sim fazem a mesma coisa há muito tempo: usam pontes para unir, encurtar caminhos, evitar rios, balsas e barcos. Enquanto passam, proseiam.
Do que falam, ou o que fazem ali na ponte, quase todos os dias? Os que estão no norte almejam o sul e vice-versa. Querem mesmo cruzar a ponte ou é ânsia de saber se podem?
O que esperam encontrar no trajeto? Geni se acomoda ali mesmo no chão, com pouquíssimos bens e uma montanha de males mostrados ao vai-e-vem de semelhantes. Eretos, ostentando fartura se dignam a despejar, vez ou outra, alguma moeda na panela. Ao tilintar, enchem de esperança aquela que sequer ousa descobrir seu rosto e só estende as mãos denunciadoras de velhice, ou apenas corroídas por um passado mal passado. Desde quando? Em que paisagem? Reza para algum deus? Gente que, estando em toda parte é vista por quase ninguém.
Com pás de cal encobrimos odores pútridos. Com vista grossa e ouvidos moucos não vemos ou ouvimos mazelas; cutucar feridas fazem sangrar; já não era sem tempo – porque temos mais tempo vivido que a viver. Será que essas palavras antigas fora de textos e conversas recentes ainda deveriam fazer sentido?
Aonde nos levam as prosas nas pontes, nas praças? “Para e pensa” ou “você já parou pra pensar?” é o que mais se ouve como introdução de postagens nas mídias. Quem quer parar, ou pior, pensar?
Ponte pênsil, a que está suspensa por cabos. Ponte pensa está mal colocada sobre estacas. Pensa ou pênsil, quando desaba, resta a correnteza transversal a nos arrastar.
Prosear na ponte, sem pressa, é o que fazemos, ou deveríamos.

