Solidariedade

Dia quente, sol escaldante.  A vendedora, com um manto sobre a cabeça, ajeita sua mercadoria no chão. Um menino se aproxima cheio de curiosidade.

— Bom dia! O que a senhora está vendendo?

A vendedora sorri, cansada, mas gentil.

— Bom dia, meu filho. Tô vendendo alho que meu menino planta lá no sítio. É bom pra gripe, pra tosse, pra espantar mau olhado… e pra dar sabor na comida também.

 — Minha mãe também vende na rua. Vende roupas. Só que ela não veio hoje.  Tá doente. A vó é quem costura as roupas, mas ela não vem para a rua porque as pernas já não ajudam.

A mulher ajeitou o lenço na cabeça.

— O que sua mãe tem?

— Uma gripe forte. Tá com medo de virar pneumonia. Já perdeu um irmão por causa disso.

A vendedora ficou em silêncio por um instante, olhando o menino diante de si — magrinho, mas com um brilho nos olhos que revelavam ter uma mãe amável. Então pegou algumas cabeças de alho e as colocou num saquinho.

— Leva pra tua mãe. Vocês têm mel em casa?

— Temos. Minha tia manda do interior.

— Então pronto. Faz um chá com alho e mel. Diz pra ela tomar várias vezes, descansar e beber bastante água. Logo, logo vai estar bem.

O menino hesitou, olhando o chão.

— Mas… eu não tenho dinheiro pra pagar.

A vendedora riu com a ternura de quem entende o valor das pequenas coisas.

— Ah, meu filho. Umas cabeças de alho não vão me deixar mais pobre.

— Muito obrigado, senhora. A senhora tem um bom coração!

 E saiu correndo, leve, como quem carrega um tesouro, pensando no sorriso da mãe já saudável.

— Mãe! Olha o que eu trouxe! Uma senhora que vende alho me deu esses. Disse pra fazer chá com mel, que vai te ajudar a melhorar.

A mãe, pálida, sorriu entre surpresa e emoção.

— E ela não quis cobrar?

— Não. Disse que não precisava.

— Então leva pra ela esse pedaço de bolo que a vó fez. Tá fresquinho.

 Lá foi o menino outra vez, o pacote quente nas mãos.

 —Minha mãe mandou esse pedaço de bolo pra senhora. Tá quentinho ainda. A senhora aceita?

A mulher sorriu e por um instante o rosto cansado pareceu iluminado.

— Aceito sim, meu querido. Que bênção! Não comi nada ainda hoje. As vendas tão fracas.

O menino sorriu e pensou “e ela nem me cobrou”.

Naquela manhã simples, entre o cheiro de alho e o sabor de bolo recém-saído do forno, ele aprendeu uma lição que não se ensina nos livros: nem sempre é preciso dinheiro pra conseguir o que se precisa. Às vezes, basta ter e encontrar um coração solidário.

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