A velha anda, desanda, arrasta os pés como quem varre a própria sombra, carrega o corpo, um fardo, veste trapos, passa vã pelas esquinas, calçadas, avenidas largas, ninguém olha, ninguém a vê. A pressa inexiste, os olhos deslizam e se perdem diante da loja iluminada e seus manequins, do banco que não dá esmola, dos homens de terno que olham apenas para os próprios relógios, das escola, das crianças que a chamam de louca. O degrau da igreja é confortável, ela descansa, o chão a conhece, acolhe, mas a cidade grita e espanta, a repele como se febre fosse. A velha segue, se apressa, se arrasta, mendiga, estende a mão e pede, sem entusiasmo, desleixada e desinteressada. E encontra a ponte. O vento sopra sol sobre os cabelos brancos, embaraçados como raízes. Ela senta, se cobre, fecha os olhos. E espera.
O rapaz anda, desanda, desde cedo carrega o corpo magro mas ágil por ruas e vielas, suas roupas rotas, sapatos gastos e cabelos desgrenhados, descombinando da esperança limpinha e bem passada. Com o currículo dobrado no bolso, bate em portas de comércio, em balcões de padaria, em escritórios abafados onde recebe sorrisos díspares, duros, educados, que sempre dizem não. Nada. Nunca. O dia passa, a hora trespassa, o corpo cansa, a cidade zomba, se encolhe, a esperança mingua. Nas fachadas brilhantes, rostos indiferentes; nas ruas movimentadas, buzinas se sobrepõem ao silêncio de sua fome. O vento sopra um calor desesperançado. Um fluxo de gente surge. A ponte se apresenta logo além do trânsito, ligando bairros, uma cicatriz no corpo da cidade indecisa, rica, pobre. Quem sabe do outro lado dela…
Aqui eles se encontram. Ela, jogada num canto, ensopada de cansaço, o rosto coberto, a pobreza exposta para quem quiser ver. Ele, pescoço exposto, dolorido, camiseta ensopada, o cansaço encoberto, a vê como quem quis ver. No bolso faz busca e encontra: duas moedas, as únicas, tilintam, caem devagar no chão entre os dois. O gesto é mínimo, mas é vasto. Não há sermão, não há palavra. A velha abre os olhos, um instante só. Brilha. Sorri um sorriso breve e frágil. O vento sopra. A mão se ergue mas não pede, dedos trêmulos desenham no ar um gesto antigo: uma bênção.
O rapaz inclina a cabeça e vai embora como quem não leva nada. Mas, naquele mesmo dia, horas depois, encontrou-se num acolhida. Um sorriso disse sim, a busca findou, o emprego trouxe estudo, cruzou a ponte, enfim. Dizem que virou Mestre, ensinou mentes, cuidou de almas, sempre com duas moedas no bolso, multiplicadas e entregues em dádiva eterna. A velha não mais se viu, não ali, na ponte. Talvez ainda ande, desande, invisível, talvez tenha desaparecido com o vento. Talvez não tenha existido. Ou, talvez, só talvez, fosse apenas a própria cidade, disfarçada em trapos, encoberta a olhos nus, testando a bondade de quem ainda ousa acreditar.

