A tigela e o avião

Hoa partiu cedo do Vietnã, ainda jovem demais para compreender a promessa que fizera.

Nos Estados Unidos, mergulhou no idioma, nos estudos e no trabalho.

Adaptou-se à nova vida, embora cada passo fosse sustentado pelo esforço.

Religiosamente, enviava dinheiro à mãe, Linh, que seguia no Vietnã.

Nenhum dólar enviado conseguia aplacar suas memórias.

As noites eram povoadas por pesadelos recorrentes.

Sempre a mesma cena : a ponte de madeira e o entardecer abafado.

Os soldados embriagados, os gritos, a violência sem limites.

E ao final, Mai, sua irmã de apenas 15 anos, caída, inerte.

Hoa ainda se lembrava da água gelada despertando-a.

Do esforço desesperado para carregar a irmã até a margem.

Da constatação tardia de que nada mais havia a ser feito.

Restou-lhe, como lembrança, a tigela de inox deixada pelos soldados.

Um objeto banal, transformado em testemunho da brutalidade.

Durante anos, Hoa lembrou o reflexo metálico estampado naquele recipiente.

Ali, forjou silenciosamente seu ódio e seus planos.

No aniversário de 44 anos, comemorou sozinha no Brooklyn.

Não havia bolo nem convidados. Apenas silêncio.

Mas aquele era um dia especial.

Seu projeto estava prestes a se cumprir.

Havia entrado numa uma organização poderosa e disciplinada.

Cada detalhe fora calculado meticulosamente.

Na manhã seguinte, o sol iluminava Nova Iorque.

Hoa embarcou no Boeing 737, assento 28D e São Francisco como destino.

O voo seguia tranquilo, até que os celulares começaram a tocar.

Chamadas simultâneas espalharam o pânico pela cabine.

Então ela e três parceiros anteciparam a operação.

O destino contudo, lhes pregaria outra surpresa.

O avião não chegou ao alvo planejado.

Caiu em Shanksville, na Pensilvânia.

Faltaram apenas 130 quilômetros para o “sonho” de Hoa.

A vingança construída em detalhes dissolveu-se no impacto.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, Linh seguia sua rotina.

Viúva da esperança, sustentava-se também vendendo os pequenos doces Báhn Tiêu.

Todas as tardes, sentava-se ao lado do banco de madeira e oferecia aos andarilhos.

Ali mesmo, onde perdera a filha mais nova décadas antes.

Usava sempre a mesma tigela de inox para acomodar os doces.

Apetrecho que para ela, era apenas utensílio de cozinha.

Nunca percebeu que carregava em si um destino inscrito.

Gravado no fundo metálico estava o segredo.

ALL-CLAD METALCRAFTERS – CANONSBURG – PENNSYLVANIA – USA.

As mesmas palavras que definiriam o fim da filha distante.

Hoa jamais soube que a mãe seguira vivendo com aquele objeto.

E Linh jamais soube o caminho escolhido pela filha.

Entre a tigela e o avião, a vida se fechava em círculo trágico.

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