Agridoce

Faz de conta: faz de conta que somos um só, eu e tu, em versões de jovem (muito jovem) e velha (muito velha) e nos encontramos em algum lugar distante, de religião e costumes diferentes, onde as coisas acabam por ser iguais, como em todos os lugares do mundo, independente de onde o sol se ponha.

Faz de conta que tu queres conselhos: conselhos sábios, como de quem está para partir e diz como a vida deve ser vivida, se devagar ou depressa, com carinho ou com ódio, ou com tudo ao mesmo tempo: agora!

Faz de conta que tu queres conselhos de como morrer: e alguém lá quer (ou precisa) deste tipo de conselho? (Suspeito que tu queiras auxílio até para isto, sempre gostou de ajuda e de conversar sobre o que te acontece. É, parece que o teu tipo é de quem precisa também deste tipo de conselho. Mas prevejo que isso pode ser bom).

Faz de conta que tu queres saber se fizestes as escolhas certas, e, se mais nova, quais seriam elas? Saber que terminarás a vida diferente de como tinhas imaginado, pobre, muito pobre, e feliz. Ou menos rica do que gostarias. Mas feliz. Terminastes a vida cheia de dúvidas e curiosidades, e tem forma melhor?

Faz de conta que esquecestes daquele conselho de deixar a crônica dormir (se não de um dia para o outro, apenas uma soneca, curta que fosse) e vais escrever assim mesmo, 5 minutos antes de sair e entregá-la fresquinha, como os pães de antigamente. Seus amigos são generosos, vão saber dar o valor que ela têm.

Além do faz de conta, vamos fazer um acordo: o que valeu mesmo foi aquele conselho que não foi um conselho: foi desejo. Veio de uma senhora muito velha, em uma língua diferente (em que as palavras que não sabias adivinhavas, mas aquelas conseguistes entender), em um país distante, muçulmano como este onde estamos hoje. O desejo era assim: minha vida está terminando e a tua inicia. Tu quisestes dizer que não, ainda não era esperta o suficiente para ficar quieta, mas ela logo terminou:

Desejo uma vida doce.

E eu não sei o que está sendo. Mas tenho tentado preenchê-la assim, cheia de açúcar para dentro, quando teimo em fazer escolhas ácidas para fora.

Que tudo se arrume, de um jeito agridoce.

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