Lá se vão mais de quarenta anos.
“Eles se encontram no cais do porto pelas calçadas / Fazem biscates pelos mercados, pelas esquinas / Carregam lixo, vendem revistas, juntam baganas / E são pingentes nas avenidas da capital / Eles se escondem pelos botecos entre cortiços / E pra esquecerem contam bravatas, velhas histórias / E então são tragos, muitos estragos, por toda a noite”.
E se são mais de quarenta anos, eles já não são os mesmos. Eles são filhos, são netos dos desgarrados. Pois nesses quarenta anos até o poeta desses versos já morreu.
O cais do porto já não está acessível. Não acho que façam biscates pelos mercados e esquinas.
Contudo, sim, carregam lixo, juntam baganas.
Vasculham lixo. Procuram latas, procuram plástico, procuram papelão.
Roubam fios.
Talvez ainda vendam revistas, vendam livros.
Vendem paçocas, vendem pipocas.
Expõem-se nas sinaleiras. Alguns dizem que têm fome. Outros que querem cachaça. “Pingentes nas avenidas da capital”. Pingentes aos quais a maioria não dá valor.
Acho que não são mais migrantes.
Talvez nunca tenham cevado mate e acendido palheiro. Nem virado brasas, contado causos, polindo esporas. Talvez nunca fizeram planos. Talvez nunca tenham sido felizes.
“Sopram ventos desgarrados / Carregados de saudade / Viram copos viram mundos / Mas o que foi nunca mais será”
E o que foi, nunca mais será.

