Mesa de Sebastião

Poderia ser na grama, em meio às plantas, pés descalços, bem à vontade. O vento cortante balançaria as folhas do coqueiro. As palmeiras emitiriam outras notas. O sol aqueceria as faces de pele clara como areia. Cenário deslumbrante.

Quando viu, estava sobre o asfalto. Calçados nos pés gelados, roupas pesadas, ventania, frio, buzinas. Cidade.

Na sua frente aquele arranha-céu. Sim, pela altura parecia tocar as nuvens brancas do céu azul. Únicas cores do quadro visível.

Parada, seus olhos só fitavam as janelas. Qual seria?

Já foi menina. Naquela tarde era uma mulher.

O coração pulsava forte, a respiração podia ser ouvida pelo outro ao seu lado. O rosto alvo ganhava um tom avermelhado.

As belas pernas finas estavam trêmulas. Lembrou das folhas do coqueiro.

As janelas pareciam todas iguais. Conforme a luz do sol invadia, a imagem refletida inscrevia formas. Deixava sua identidade em cada lente sustentada pela esquadria presa àquele concreto armado.

Andava pelos corredores estreitos, sem fim. Só enxergava portas fechadas. Nenhuma janela. O cenário havia mudado.

De fora, aqueles vidros escondiam as portas e o reflexo do sol fotografava a paisagem.

Lá dentro, passo a passo, atrás de cada porta, outros mundos. Conheceu pedaços de cada um deles. Aprendeu ouvindo suas inquietações, diferenças culturais, desejos. Dificuldades, desafios e conquistas. Com afeto e leveza foi tecendo relações. Passagens foram surgindo. Em alguns espaços, o medo se revelava.

Caminhou intensamente. Escutou muitas vozes. Conheceu vazios. Como esponja, absorveu histórias que não eram suas e foi aprendendo o jogo da vida, esfregando com exaustão as peças do tabuleiro como quem limpa todas as imperfeições de uma lente.

Sua passagem era transitória.

– Desce?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima