O Pecado de olhar

Têm dias em que não refuto o pensamento: o mundo acabou. Só esqueceram de avisar.

Em vários livros e, inclusive, em textos e fotografias de minha autoria, a ponte, figurada ou não, é usada, enquanto metáfora para conexão, rito de passagem, mudança de rumo, entre outras ideias. Entretanto, existem outras pontes. Aquelas em que pessoas transitam somente com suas sombras, onde desfilam vivos fingindo que a morte é invisível.

Pontes onde o povo passa com ou sem pressa, com guarda-sol ou sombrinhas, com óculos escuros que mascaram a não miopia. Onde o olfato ignora qualquer odor que não seja o do suor ou perfume do próprio corpo. Pedaços de madeira ou ferro unidos por cordões de aço à semelhança das pessoas que a esses materiais depositam suas caminhadas diuturnamente. Pontes que exalam o fracasso da humanidade enquanto seres de amor. Em uma dessas pontes, de repente, algo acontece. Alguém abaixa o olhar. E vê, encara o abismo. E sente, pois o abismo tem cheiro de gente. E se comove.

Na ponte jaz um corpo, desprovido de forças até para buscar alguma resposta no alto. Um corpo coberto de trapos, panelas ao redor, com a cabeça encoberta, não por vergonha ou constrangimento, mas por pudor, por angústia, por temor. Um corpo ignorado por todos os pés que ali transitaram até aquele instante em que o jovem, de forma abrupta e inesperada, decide nele depositar seu olhar. Comete o pecado de, não só olhar, mas ser impactado e se sensibilizar pela cena que também o observa. Sim, aquele corpo também tem olhos que, embora pareçam cobertos, miram de forma discreta a mão que se atreve a jogar uma moeda em uma das panelas.

Nesse momento, o mundo inteiro perde fôlego. O jovem cometeu o maior dos pecados modernos. Ele olhou. Olhou o que todos que por ali passam fingem não ver. Será ele um alienígena? Um meliante da empatia? Um bandido da ternura? Porque ao homem moderno foi retirada a coragem de sentir compaixão, ou melhor, a compaixão virou pornografia moral: todo mundo quer, mas ninguém assume. Um fotógrafo que por ali passa, para e congela aquela imagem – a do ato impensado do rapaz junto com a gente que o ignora. A foto, ao ser exibida, recebe de seus expectadores olhares que fingem ser ela, a imagem, arte – para não terem que admitir ser espelho.

A ponte continua cheia, os passos do mundo covarde não dão trégua. O silêncio retorna de forma insuportável. O corpo continua lá, quase imóvel, cansado, talvez rezando para um Deus, também cansado, que não atende mais os chamados de ruas. O jovem continua seu caminho. O drama continua.

O mundo é especialista em desviar o olhar.

O olhar da compaixão.

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