A primeira imagem que me marcou em Paris foi da Torre Eiffel iluminada, imponente na noite. Mas a segunda, me tocou ainda mais: mulheres e crianças muçulmanas, dormindo em caixas de papelão na rua do meu hotel, em Montparnasse. O contraste entre o cartão-postal e aquilo que não aparece na mídia me chocou. Duas realidades distantes que não querem se encontrar.
No dia seguinte, ao caminhar pelas ruas da Cidade das Luzes, percebi os imigrantes nas sombras. Mulheres muçulmanas em situação de mendicância espalhavam-se em diversos pontos, sobretudo diante de igrejas católicas. Sentadas, usando burca e hijab, com um pequeno pote de esmolas ao lado, pediam doações aos turistas. Cinco vezes por dia, interrompiam os pedidos para se ajoelhar em oração. Buscavam dignidade em suas tradições, separando o momento de pedir e de orar.
Pessoas apressadas em visitar os monumentos desviavam o olhar. Os moradores locais fingiam não ver. A miséria incomoda. São as pessoas consideradas invisíveis. Crianças pedindo esmola nos semáforos, moradores de rua dormindo embaixo de marquises, trabalhadores que sequer recebem um bom dia. O mundo moderno se habituou à indiferença. Cada um centrado em si próprio, sem empatia pelo próximo.
Pelas ruas de Calcutá, Madre Teresa acolhia doentes, inválidos, intocáveis. Devotou sua vida a atender “o mais pobre entre os pobres”. Dizia que a caridade não é apenas dar uma moeda ou um prato de comida, mas oferecer um sorriso, um gesto, uma palavra capaz de devolver dignidade. Repetia que não é o quanto damos, mas o quanto de amor colocamos na doação.
Caridade é olhar a miséria de frente, onde quer que esteja, nos cantos do mundo. Não importa o nome, nem a história. Sem selfies, sem stories, sem espetáculo. Atravessar oceanos, cruzar pontes para “fazer o bem sem olhar a quem”. Cada gesto de bondade motiva outro, multiplicando ações positivas de solidariedade.
Não precisamos de pontes de aço, mas de uma ponte de humanidade, conectando o visível e o invisível. Reconhecendo a existência de quem sobrevive à margem, deixando o abstrato assumir forma. Rompendo a lógica das recompensas, do reconhecimento e da troca. Essa travessia é para poucos. E esses, são os verdadeiros heróis.

