Título O peso de um olhar
Nome do autor Maristela Rabaiolli
Texto
O sol queimava a madeira do velho passadiço. Os passos ecoavam secos, misturados a murmúrios e ao ranger dos troncos gastos. Ninguém parava, todos seguiam com pressa, guardando sua sombra sob guarda-sóis coloridos.
No chão, rente ao banco improvisado, uma mulher cobria o rosto com um pano branco. Não se sabia se o fazia para esconder a vergonha ou para proteger-se do calor. À frente, duas tigelas de metal refletiam a claridade, esperando o som breve de uma moeda.
O menino, de pés descalços e camiseta suada, aproximou-se. Parou diante dela, indeciso. Olhou as mãos que se moviam lentamente dentro de um saco de arroz, como se acariciassem grãos em busca de um milagre.
Ele não trazia nada nos bolsos. Apenas um olhar longo, que pesava mais que ouro. Quis falar, mas o silêncio o prendeu. A mulher, percebendo-o, ergueu um pouco a cabeça: olhos fundos, mas vivos, encontraram os dele.
Foi então que ele estendeu a mão, sem nada a oferecer além da própria presença. O calor do corpo dela, apesar da distância, pareceu diminuir a ardencia do sol em sua pele. Um arrepio leve cruzou-a, não de frio, mas de um reconhecimento há muito esquecido. Não houve palavras nem pedidos, apenas o encontro de duas almas à margem.
Eles permaneceram assim, por um tempo infinito, sustentando a dor um do outro. Quando o menino seguiu, o som dos seus passos já não ecoava: era parte do silêncio dela. E, por um instante, naquele encontro de miséria e inocência, o mundo pareceu mais humano — como se a ponte de madeira não levasse apenas a outro lado, mas também à esperança.

