Há pouco tempo, escrevi uma crônica onde avaliava os cinco sentidos humanos e a importância de cada um. Concluí que nenhum é mais importante do que a visão. Pode haver quem discorde.
Revendo o maravilhoso filme Central do Brasil, tive, mais uma vez, vontade de escrever sobre coisas essenciais à compreensão da vida com plenitude. Dessa vez não falo de sentidos, mas de habilidades. Especificamente a leitura. Fico imaginando o que se passa na cabeça de pessoas que não sabem ler quando veem aquele emaranhado de letras nos livros, revistas, folhetos e todos os outros lugares onde elas se exibem diariamente.
Quando éramos crianças, tinha uma senhora que trabalhava na nossa casa, cuidando da irmã mais nova. Ela não sabia ler e me impressionava como conseguia pegar o ônibus certo para o trabalho. Precisava decorar a aparência do letreiro da sua linha de ônibus — um modo especial de leitura. Caso fosse modificado qualquer item ou cor no letreiro, gerava confusão e ela precisava pedir ajuda para ter certeza de que era o seu transporte.
Pessoas que não leem, por certo não escrevem. Comunicam-se basicamente pela oralidade. Não escrevem bilhetes, nem mensagens no celular. São pessoas que se informam pela audição de rádio e televisão, ou conversas de bar ou de ônibus. Não podem interpretar suas certidões de nascimento ou casamento, seus contratos de trabalho, o bilhete da professora do filho, a receita do medicamento, a bula de remédio e o resultado do exame. Acreditam no que é dito. São pessoas de boa fé. Sem o sentido da audição ficam completamente alienadas do mundo.
Central do Brasil mostra uma estação de metrô, onde pessoas alfabetizadas redigem cartas de analfabetos aos seus familiares distantes. Um dita, o outro escreve. De novo a boa fé. Nenhuma garantia de que a carta contenha o que foi ditado. Nenhuma garantia de que a carta chegará ao destino.
Para nós, letrados, é muito difícil compreender a limitação dessas pessoas. Da mesma forma que é quase impossível, para os que veem, compreenderem as dificuldades de quem não goza desse privilégio. Em ambos os casos a visão está embaçada. É preciso muita confiança em quem os cerca. Nós, que enxergamos, lemos e escrevemos, muitas vezes somos enganados por letras miúdas, entrelinhas, duplo sentido e propósitos escusos. Confiança nos nossos tempos é artigo de luxo. Na liquidez dos afetos e na rudeza das relações modernas, confiar nas boas intenções do outro é sempre um desafio.

