Estamos vivendo tempos estranhos, que pouco se parecem com o século passado. Vivem-se experiências incomuns, antes inimagináveis. Muitos fizeram previsões futurísticas, registradas em livros, filmes, palestras, artigos e outros meios. Mas a realidade veio tingida de cores ausentes em grande parte das previsões. O que temos visto é uma sociedade adoecida física, emocional e espiritualmente. Em muitos aspectos, andamos de marcha à ré, acreditando em velhos fantasmas, que pareciam já devolvidos ao além. Esse adoecimento tem muitos e variados sintomas. O mais recente refere-se a pessoas adultas tratando bonecos como se fossem bebês reais.
Muito se tem ouvido falar disso. Psicólogos tentando explicar ou justificar, memes viralizando nas redes sociais, cronistas usando como mote em suas colunas, amigos opinando em rodas de conversa e até médicos se posicionando. Parece que todos têm algo a dizer. Pensando nisso e estimulada pelo cartaz de um filme chamado Brazil, onde reina a distopia, percebi que também tenho o que dizer sobre os pseudopais dos famigerados bebês reborn.
Entendo esta febre como parte de um processo de auto centrismo que vem tomando conta dos humanos. Também de uma imensa dificuldade de lidar com a vida real, onde comportamentos infantilizados são cada vez mais comuns. A tecnologia nos abriu novas possibilidades de felicidade. No mundo virtual podemos ser o que quisermos. Até felizes. Matamos o inimigo com uma rajada de balas, criamos uma imagem de nós mesmos que se ajuste às mais altas expectativas, temos uma imensidão de amigos que nem conhecemos. Parece que tudo o mais que quisermos fazer e criar neste espaço de lazer e fantasia é permitido. Daí para a frente, a realidade parece cada vez mais dura e difícil de aceitar.
Nossa expectativa em relação ao futuro, ao bom futuro, está se encolhendo. Eventos climáticos e políticos martelam nossos sonhos paulatinamente. Nem a espiritualidade nos conforta mais. Para muitos jovens, o foco tornou-se unicamente a própria sobrevivência e a do planeta. Não se acham confortáveis para constituir uma família, tendo filhos para quem não poderiam garantir uma existência segura. Falsos bebês podem ser consolo para mulheres, talvez alguns homens, que sabem que nunca serão mães, pais ou avós. Bebês que trazem a possibilidade de ter um filho que não demanda nada, alimentando o egoísmo e a insegurança dos pais. E, ainda, um filho que estará sempre na fase mais fofa, que mais desperta o amor incondicional. Com a benção de não interromper o sagrado sono dos pais, não fazer coco e não adoecer nunca.
Sempre é bom lembrar que algumas décadas atrás, pais que não queriam ter trabalho com animais de estimação, davam aos filhos um brinquedo que arremedava um pet. O tal de Tamagochi. Alguém recorda? Por isso mesmo que não me surpreende ver adultos embalando bebês de silicone. Em tempos de cirurgias modificadoras de rostos e corpos, selfies de felicidade constante e tantas outras coisas falsas aceitas com naturalidade por todos, por que não um bebê falso? De maneira simples e realista, vejo essa febre como consequência da escolha de viver sem responsabilidades , e de não crer no futuro.
Psicoterapeutas, psicanalistas e afins têm suas opiniões baseadas em estudos sistemáticos do comportamento humano e na ciência. Espíritas poderão dizer que tem relação com perdas sofridas em outras vidas – karma. Palpiteiros dirão qualquer bobagem, humoristas farão piadas, muitos fizeram memes. Por falar em meme, entre tantos, o melhor para mim é o que acha natural que venham os bebês reborns, afinal, há muito as mulheres vêm usando pintos reborns, aliando ou substituindo pelos reais. Tudo não passaria, então, de um jogo de causa e consequência.

