O tempo do tempo

Ano passado, reencontrei duas amigas (em momentos diferentes), que mudaram de Estado há mais de vinte e cinco anos. Durante essas quase três décadas, mantivemos contatos esporádicos. Seguimo-nos em redes sociais, nos cumprimentamos em datas festivas, elogiamos postagens de nossos filhos e netos. Comentamos nas fotos de viagem. Alguns poucos encontros rápidos aqui ou lá. E só. Tempo que passa, interesses que se desencontram, distância física e atribulações da vida doméstica foram nos mantendo assim, nesta interação rasa.

O primeiro reencontro planejado, depois de tantos anos, com uma delas preencheu minhas expectativas. Foi terno, cheio de boas lembranças e assuntos em comum. Falamos de família, trabalho, aposentadoria, projetos e outras coisas. Tivemos uma tarde bem agradável. Prometemos nos ver com mais frequência, mas ficou clara a passagem do tempo. Ambas já não somos as mesmas. Seguimos, cada uma para um lado. Trocamos algumas mensagens no WhatsApp e voltamos ao universo das redes sociais. Já, o encontro planejado com a segunda superou todas as minhas expectativas. Foi como se o tempo tivesse parado. A mesma conexão, a mesma ternura, muito assunto, muita disponibilidade de uma para com a outra. Foi um reencontro alegre e atemporal. Fez bem a ambas. Desde então, já nos vimos outras vezes, trocamos mensagens e estamos fazendo planos para as férias de verão. A verdade é que nem o tempo nem a distância separam duas almas afins. As pessoas se perdem somente quando os vínculos são superficiais ou de ocasião.

Já vivi outras situações semelhantes. Reencontrei amigas com quem tive relacionamentos fortes no passado e percebi que não tínhamos nada mais em comum. Também já ficaram para trás pessoas bem próximas, porque mudamos e fomos nos afastando naturalmente. Tenho amigos que vejo pouco, às vezes ficamos meses sem nos encontrar, ou anos, mas quando nos vemos está tudo igual. São amizades de longa data, que tiveram muito tempo para amadurecer e se solidificar. Quando isso acontece com amizades, aparentemente, menos consistentes, realmente me surpreende e me encanta. Ainda não tinha passado pela experiência de resgatar uma amizade feita na vida adulta, com mais tempo de distanciamento do que de presença, mas tão sólida que resistiu. O tempo é realmente o senhor da vida. Como em um grande quadro de giz, ele apaga tudo o que não precisamos, deixando só o que importa, abrindo espaço para que possamos saborear as memórias, sem abrir mão de criar novos vínculos importantes.

Fazemos amizades de formas diferentes, conforme a fase da vida. Quando crianças, todos servem, basta ser da mesma faixa etária e ter algo mínimo em comum: escola, bairro, família. A partir da adolescência, ficamos mais seletivos. Queremos amigos parecidos, que gostem das mesmas coisas que nós. Dessa época, alguns ficam para sempre. Na fase adulta, temos muitos colegas e conhecidos e menos amigos. Nos aproximamos das pessoas por interesse: pares de profissão, pais de colegas dos filhos, família do cônjuge. Amizades duradouras feitas na vida adulta são mais incomuns. Acontecem quando encontramos no outro uma ligação de cumplicidade emocional. De resto, são relacionamentos de ocasião. O que não quer dizer que não possam ser ótimos no tempo em que durarem. Quando envelhecemos, o ninho vazio faz com que voltemos a nos relacionar como crianças e adolescentes. Sem tanta exigência ou expectativa. Boas companhias para um cinema ou um show. Parceria para um drink. Happy hour com colegas da academia, e por aí vai. Aceitamos melhor as diferenças porque reconhecemos a necessidade de ter uma rede de apoio contra o isolamento e a depressão. Esse é o ponto de conexão.

O tempo vai nos ensinando sobre as diversas formas de se relacionar. Ele não passa rápido nem devagar. Tem seu próprio ritmo. O tempo do tempo é suficiente para que possamos evoluir e compreendê-lo. Basta que estejamos atentos aos sinais desse grande mestre.

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