Esta é a história de três irmãzinhas muito alegres e brincalhonas. Chamavam-se Sol, Lua e Estrela. Passavam o dia brincando e também gostavam de dançar e cantar. Colhiam temperos e flores para a mãe. Eram muito parceiras, embora tivessem personalidades bem diferentes. Sol era pura energia, tinha sangue quente, era dominadora e cheia de si. Estrela era meiga, tímida e romântica. Lua, completamente instável, ora alegre e luminosa, ora sorumbática e reticente.
Eram meninas de muita coragem. Já tinham enfrentado com bravura monstros imaginários e perdas reais. Há alguns anos, quando ainda eram bem pequenas, houve uma pandemia. Foi um vírus que matou muita gente no mundo inteiro. As pessoas ficaram meses encurraladas em casa, cheias de preocupações com a saúde e com as contas a pagar. Crianças não iam para a escola, adultos não saíam para trabalhar. Negócios só fluíam online. Na família das meninas, o vírus levou a vovó Zelosa e também a agência de turismo do papai. Foi uma época difícil. A família ainda se recuperava das perdas quando houve uma enchente. Perderam móveis e eletrodomésticos e Sonho, o cachorrinho das meninas. Com o trauma da enchente de setembro e mais outra em janeiro, Lua, Estrela e Sol passaram a temer as nuvens, que apagavam completamente seu brilho. Os pingos de chuva se confundiam com as lágrimas da mamãe . Todos temiam o futuro.
Apesar dos avisos vindos do céu, as providências terrenas não foram tomadas. Quando a chuva retornou, em maio, as pessoas já não tinham de onde tirar forças para o enfrentamento. Muitos sucumbiram. Pontes desabaram com ou sem automóveis e pessoas em cima. Casas foram invadidas pelas águas ou por malfeitores. Móveis, carros, vegetação, animais e pessoas foram arrastados como lixo pela rebeldia das águas. Quem já nem tinha o que perder perdeu tudo outra vez. Naquela ocasião, Sol, Lua e Estrela ficaram desaparecidas por um longo período. Mas, quando as águas pararam de cair do céu, e as da terra foram baixando, avistaram-se Lua e Estrela bem próximas. Ambas estavam muito assustadas, emitindo um brilho escasso, quase imperceptível. Dona Resiliência ajoelhou-se diante das filhas e, emocionada, em uma prece agradeceu.
A menina Sol apareceu na manhã seguinte. Fraca, mal aquecida e faminta, chegou meio de arrasto, encoberta pela lama. A luminosidade, antes enérgica, deu lugar a uma claridade esmorecida. Para felicidade da família, aos poucos, as meninas foram se recuperando. Remédios curaram suas feridas e a comida da mamãe recuperou suas forças. Embora saibam que nada será como antes, a exemplo de Dona Resiliência, as meninas voltaram a sorrir. Em seguida , Sol agraciou a todos com seu calor e brilho. Lua voltou ao seu lugar, encantadora em suas fases. E Estrela brilhou com mais intensidade, anunciando a esperança de dias melhores.

