É a vida

“É bonita, é bonita e é bonita.”
O que é, o que é? – Gonzaguinha.

Me propus a escrever sobre a vida e concluí que é mais fácil escrever sobre a morte. A vida tem muitas nuances, mas tem algo em comum com a morte: envolve, além de ciência, crenças. Acreditar na criação rápida de tudo por um ser superior ou numa evolução lenta e natural são antagonismos presentes desde sempre. Há quem precise acreditar que existe um deus criador de tudo. Que fez a mulher de um pedaço do homem e que lhes impingiu castigo eterno por terem sido desobedientes. Um castigo que, em tempos modernos, seria punido por abuso de poder, trabalho análogo à escravidão, abandono de incapaz, alienação parental, tortura, e por aí vai. A vida, seja humana ou não, pode ser considerada um milagre. Não necessariamente do ponto de vista espiritual, mas um milagre da natureza, por sua perfeição e completude em si mesma. Ao invés de sublimar a criação, prefiro crer na magia da evolução. Seres vivos se reproduzem, se refazem e se autorregulam paulatinamente. É a vida se adaptando.

Cada vida nova chega carregada de esperança na humanidade. E a dita humanidade deveria corresponder inteiramente às expectativas. Mas não é bem assim. O corpo é uma engrenagem de movimentos contínuos e perfeitos. A natureza sempre deu tudo o que era necessário, mas não foi suficiente para a curiosidade e posterior ganância do homem. Os humanos correm atrás de desumanizar e desnaturalizar tudo. Querem ter domínio sobre a espécie. Mas, com a chegada de um bebê, a força da natureza se impõe. Uma mãozinha quentinha que aperta seu dedo com força, um meio sorriso, pezinhos fofos que se movimentam no ar. Acompanhar o desenvolvimento de uma criança é algo encantador. Nasce sem saber nada. Dependente em tudo. Em poucos meses, já sabe imitar e fazer caretas, demonstrar afeto, rolar e se movimentar na cama. Logo aprende a comer com a própria mão, empurrar o que não quer, apontar para o objeto de desejo, balbuciar e manipular. Daí para andar, correr, falar e questionar é só um clique. E tudo isso, apenas com a observação do mundo ao redor. O aprendizado não requer ensinamentos, nem grandes estímulos. É a vida acontecendo.

Se a vida é o nosso bem mais precioso, deveria ser o mais cuidado e valorizado. À medida que vamos nos tornando adultos, o sistema vai nos engolindo de tal forma que autocuidado passa a ser secundário. Nossa existência passa a valer cada vez menos. Bem-estar é luxo de poucos. Existir, para a maioria, se resume à sobrevivência. Sempre no automático, sem parar para sorver pequenos prazeres diários. O sol, a lua, os sabores, os odores, tudo passa batido na corrida pelo fazer, construir e prosperar. Precisamos voltar a ser. Ser humano, ser vivo, ser alegre, ser sensível, ser amado, ser feliz de fato. Vida sendo vivida.

A plenitude precisa se sobrepor à pressa de viver. Logo será tempo de recordar. É a vida se despedindo.

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