A morte me espreita há mais de seis décadas. Mantém-se, quase sempre, a uma distância relativamente segura. Algumas vezes ousa se aproximar demais, mas, não sei se por mérito meu ou incompetência dela, termina se afastando. Porém, nunca volta ao seu ponto original. Sempre retorna um passo a menos. Sei bem que está, hoje, mais próxima do que ontem, mas não me abalo. Não permito que me faça mudar o ritmo para fugir dela. Sou lerda, sempre fui assim, esse ser desapressado, que gosta de viver cada minuto com delicadeza. Meus passos estão mais curtos, meus pensamentos mais profundos, meus ouvidos mais atentos e meus olhar mais difuso. Sigo desacelerando, ao invés da pressa de viver cada dia como se fosse o último. Não temo essa aproximação. Embora não tenha prazer nisso, aceito com dignidade o destino que é certo.
Quando era criança e muito jovem, tinha pânico ao pensar que um dia iria morrer. Imaginava o envelhecer como um castigo, pois era o prólogo do fim da vida. Queria morrer jovem. Como alguém poderia viver e ser feliz, caminhando para o vazio, encarando a morte anunciada? Pensava que fosse impossível viver sem expectativa de futuro. Como poderia me alimentar só de passado!? Mas, as etapas da vida são perfeitas. Elas vêm, uma após a outra, nos ensinando e preparando para o entendimento de tudo. Palmas ao criador! Quando o fim se aproxima, estamos aptos a viver só o presente. Hora de aparar algumas arestas e aceitar o que não teve solução. Hora de não viver o futuro antecipadamente, apenas fazer investimentos mínimos para uma boa passagem de nível, mesmo ignorando se vamos subir ou descer.
Não importa mais saber o que vem depois. Se haverá uma segunda chance, se haverá cobrança e consequência dos erros, ou se, simplesmente, não haverá mais nada. Tanto faz, porque, neste estágio do processo, haja o que houver, será como tem que ser, independente de minha crença ou de meu desejo. Quando aquela que me espreita há tantos anos estiver muito próxima de mim, a ponto de eu poder sentir sua presença constante, já não vou mais poder despistá-la. Então, vou encarar com altivez – com a certeza de que fiz o melhor que pude com as armas que me deram – e com a curiosidade crônica sobre o lado de lá me atiçando. Na esperança de que os espíritas estejam certos, planejo escrever o relato da chegada e deposito confiança nos amigos médiuns que sobreviverão a mim, para receber e publicar no mundo de cá. Prometo me empenhar ao máximo para não deixar meus leitores órfãos da minha derradeira narrativa.

