Interessante…
Dei-me conta de que algumas imagens que vejo evocam sons. Algo como não ser possível apenas vê-las – fico a escutá-las, também, como se fossem, imagem e som, indissociáveis.
A imagem de um feixe de raios a rasgar os céus me traz trovoadas;
A imagem de um bebê de boca aberta e corpo retorcido ao nascer me traz o choro;
A imagem de um badalo encontrando o corpo do sino me traz sua possível nota musical;
Aliás, notas musicais sempre me chegam ao ver fotos de instrumentistas em ação, cada uma com o timbre do instrumento ali apresentado.
A imagem de uma cachoeira me traz a melodia das águas;
A imagem de um remador me traz a melodia das águas ritmada pela mão humana;
A imagem de um liquidificador ligado me traz a antimelodia;
Aliás, o meio líquido em turbilhão traz algo de perturbador, de sinistro. Uma demonstração de força, tipo o mar a desdenhar de nossa dimensão.
A imagem de uma ambulância me traz a sirene;
A imagem de um monitor multiparamétrico de sinais me lembra seus bips;
A imagem de um rosto contorcido me traz seus gemidos;
Aliás, a batalha da humanidade pela vida produz sons e imagens ora desesperados, ora de salvação. Sempre serão pedidos de alerta a chamar nossa urgente atenção à fragilidade da existência.
A imagem da minha filha dormindo me traz o silêncio da paz;
A imagem do meu amor dormindo me traz o silêncio da felicidade;
As imagens do alvorecer me trazem os suaves sons que o sol despertará ao meu redor;
Aliás, acordar antes do sol, antes da casa, antes de minhas meninas, será sempre um resgate de doçura a prometer resistência aos sons que um dia venham a me atemorizar, perturbar, afligir.
Interessante…
Dei-me conta de que passar cinco dias de silêncio em um ouvido – felizmente por nada grave e já sanado – fez com que eu antecipasse a surdez que ainda virá e me forçará a escutar também pelos olhos.

