Feliz, procuro agruras num palheiro e de onde estou sinto o peso de 1064 janelas e me castiga imaginar os dramas particulares mal ocultos por vidros limpos, haverá angústia dentro de quantas salas? quantas paredes escutam choros imperceptíveis ou leem olhares em agonia ou refletem sulcos em mil faces, haverá de uma hora para outra? uma janela a se abrir não para sorver o ar da manhã nem para registrar o ocaso do cálido sol de final de outono, mas para o salto e será agora? de onde estou calculo quanto de espera há por trás de 1064 janelas: uma consulta ao ginecologista pela suspeita de uma gravidez de risco, a pesada antessala de um advogado que tenta a quinta conciliação de um casal em litígio (uma avó que não está ali e se preocupa com o destino dos pequenos), a espera de um diagnóstico de leucemia ou a sonhada notícia de um doador compatível, a leitura solitária da carta de demissão, a escuta atenta de um veredito de falência… nem sempre onde há espera há esperança e de onde estou assalta-me o horror de 1064 janelas que mal disfarçam a existência das horas vazias, das mesas cheias dos trabalhos perdidos, das humilhações do desperdício, do assédio, da bebedeira em horário de expediente, da lucidez indiferente ou da promessa vazia ou do plano adiado ou da meta impossível, do amor platônico, do desprezo lacônico das flores plásticas, do nó na garganta ou do grito ensurdecedor da vida desperdiçada e, horrorizado, de onde estou vejo 1064 janelas compondo um mosaico arquitetônico quase desprovido de curvas e são linhas paralelas e perpendiculares e estabelecidas no correr de muitos anos mas que ao cabo compõem um conjunto que lembra Mondrian, mas haveria alguém por trás de tudo inspirando arquiteto por arquiteto engenheiro por engenheiro na preparação de uma paisagem final ou o homem à imagem e semelhança do Criador cria perenidade ao sabor do acaso? falei acaso? de onde estou 1064 janelas não me olham e na calçada um homem me olha e deve supor minha alegria. Sou feliz… mas como sê-lo?

