Sozinho

Sentou na terra escura, onde a areia parecia cinza de ossos. O sol forte despontava no horizonte. Demon encarou o mundo morto e pensou ser o último homem naquela terra.

Quando sentiu as primeiras tensões de uma guerra nuclear iminente, investiu sua fortuna em um projeto de bunkers privados: abrigos subterrâneos equipados com tecnologia de ponta, alto padrão, autossuficientes em energia, água e comida.

Os primeiros meses foram estranhos. Os primeiros anos, suportáveis. Em algum momento, ao acordar, esperava ouvir passos, ruídos familiares. Arrastava os chinelos, escutando apenas os próprios passos.

Os filmes, repetidos. Uma, duas, três vezes cada. A sala de cinema com uma única poltrona ocupada. Decorava os diálogos e contracenava com os atores. Tentando dar movimento a uma vida estagnada.

Sonhava sair pelo mundo como Dom Quixote, atrás dos moinhos de vento, ou melhor, atrás de bunkers habitados. Mas o seu era isolado, exclusivo, solitário. Os outros eram colônias, cidades embaixo da terra.

Às vezes, sentava em frente ao espelho, contemplando sua imagem como companhia. Rugas, olhar cansado, envelhecendo.

Morrendo.

De tédio.

De silêncio.

A estabilidade emocional sendo devorada como um buraco negro.

Pensando. Falando sozinho.

Deteriorando.

Ouvindo vozes num eco metálico.

Olhava pelas câmeras e só enxergava o deserto.

Sem pássaros, sem plantas.

Nenhum animal.

Nenhum corpo.

Vazio.

Dez, quinze, vinte anos.

O gerador começou a falhar.

O ar pesou.

Ele subiu à superfície.

Girou a manivela do abrigo.

Talvez morresse lá fora. Mas já estava morto por dentro.

O ar parecia respirável. Puro.

O sol atravessou a carne.

Pegou um punhado de areia, deixando escorrer entre os dedos.

Sentindo.

Recuperando a sanidade.

A terra.

O mundo.

Então, como um sinal, vê uma luz piscar ao longe.

Pessoas. Minúsculas. Formigas.

Movimento.

Dá o primeiro passo naquela direção.

E o deserto parece caminhar com ele.

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