Não aprendeu dizer adeus

Quando a epidemia chegou em 2020, o médico e sua equipe não estavam preparados. Ele acreditava que a pandemia não chegaria ao Brasil. Com o avanço da medicina, parecia não haver espaço para um organismo desconhecido no ar. Mas tudo muda, tudo é impermanente. Inclusive os vírus. Bactérias proliferam, vírus sofrem mutação. O que não morre, adquire resistência. Não preciso desenhar o que veio a seguir.

Meu primo, doutor André, era um dos médicos do Hospital Conceição. Ele coordenava tudo com frieza, pulso firme e confiança na ciência. Em pouco tempo o hospital transformou-se em um cenário de guerra: horas incontáveis de esforço em um ambiente de alta pressão. Corredores cheios, sirenes, alarmes, respiradores. Os doentes chegavam com sintomas parecidos — febre, tosse, dor de garganta — como se estivessem resfriados. O medo do contágio era enorme, a equipe temia se infectar enquanto atendia os pacientes. Máscaras, luvas, capas protetoras — paramentados dos pés à cabeça.

O médico prático e metódico, precisou encarar a desordem. Faltavam leitos, pacientes eram deixados à espera, famílias sem notícias. Proibidas de visitar. Ele via Covid em tudo. Encarava-o. Pisava nele. A cada atendimento sentia-se sujo, contaminado. Estava desarmado diante de um vírus sem cura. Quando algum paciente lhe despertava esperança, em poucas horas estava intubado. A maioria não voltava para casa. Ele tentava ser forte, mas, nas despedidas e na falta do adeus, foi se tornando mais humano.

Pediu à esposa que não saísse com as crianças, seguisse o protocolo e as normas de higiene. Parou de ir para casa, evitando levar o vírus. Andava pelo hospital se arrastando em sua jornada de três turnos seguidos. Reduziu o contato com a família. Esquecia de atender o telefone, de responder mensagens. Esqueceu que tinha família. Os meses passaram. Então, lembrou. Ligou para a esposa. Ela não atendia o telefone. Ligou para a cunhada. Soube, em tom lamurioso, que a esposa e os dois filhos faleceram da doença em outro hospital. Haviam sido enterrados, dois meses antes, em caixões fechados.

Um dia, tudo volta. Nesta semana o surto de Covid tomou conta novamente do Hospital Conceição, em Porto Alegre. André me ligou para falar dos pacientes internados. Sou o mais próximo do que lhe restou de família. Contou, emocionado, sobre as trigêmeas de quatro anos que atendeu. A mãe demorou para levá-las ao hospital, pensando ser uma gripe. Ele internou as meninas, pediu que a mãe retornasse para casa, proibiu visitas. Fez tudo que podia para que sobrevivessem. Mas eram pobres, mal-nutridas, viviam na miséria. Não resistiram.

Abalado, impotente por não ter salvo nem os próprios filhos, nem as trigêmeas, decidiu dar a notícia pessoalmente. Chegou à vila dirigindo seu carro de luxo. Parou na entrada da rua, verificou o endereço. Desceu do carro e caminhou pela ruela, deixando pegadas no barro. Ao encontrar a casa, viu três vestidos novos de criança pendurados na cerca. A mãe das meninas os havia ganho dos vizinhos, para que usassem na saída do hospital. Lavou e pendurou para que ficassem limpos, prontos. Esperava por um dia que não viria. Ele pegou o celular no bolso, tirou uma foto. Enviou-me com a legenda: “Vendem-se vestidos de criança, novos. Nunca usados.”

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