Mães de Guadalupe

Sentados no chão, a uma hora de Guadalajara, no México, um grupo de busca vasculha, em silêncio obstinado, vestígios de pessoas desaparecidas. Folheiam um caderno repleto de nomes e codinomes, cercados por centenas de sapatos, mochilas e outros objetos pessoais abandonados. O Rancho Izaguirre, que pertenceu ao cartel de Guadalajara — pioneiro no trabalho com a máfia colombiana da cocaína — recrutava e treinava pessoas para o crime organizado, visando exportar a droga para os Estados Unidos. Armada e equipada, a fazenda agrícola não era apenas uma fortaleza: era também um campo de extermínio. Restos mortais carbonizados, foram encontrados em valas clandestinas.

No México, pessoas desaparecem com um estalar de dedos, ou são “desaparecidas”. Pelo menos 44 por dia. São mais de 130 mil, segundo as estatísticas. Algumas são encontradas em valas, cobertas de terra e com números no lugar de nomes; outras jamais serão localizadas.

Os ventos carregam histórias que não deveriam ser contadas.

Entre elas está a trajetória da mexicana Ursula Gonzalez. Em 2006, sua vida mudou quando seu filho desapareceu. Juan tinha uma revenda de carros e saiu da empresa para entregar um veículo a um suposto comprador. Nunca mais voltou. Desde então, Ursula percorre o país em busca de notícias e atua em um grupo de desaparecidos, que mantém operações em todo o território. Todos os dias, dedicam-se a sair com pás e picaretas para desenterrar respostas e os restos de seus entes queridos.

Os ventos levantam poeira e lembranças no calor seco mexicano.

São histórias de mães que caminham juntas, carregando nas mãos fotos, cartazes, velas e flores. Mulheres que se tornaram próximas pelo luto, pela teimosia que não aceita o esquecimento. Carregam um silêncio pesado, gritos contidos, promessas feitas nas sombras da criminalidade. Nutridas por uma força incomum que a violência não consegue enterrar.

O sol se põe sobre ruas marcadas pelo medo.

Os raios entram enérgicos na igreja simples, sem padre nem liturgia oficial. Indiferentes ao ruído dos carros e buzinas do lado de fora, as mães oram pelos seus filhos. Oram à Nossa Senhora de Guadalupe, protetora dos pobres, oprimidos e marginalizados. Evocam a padroeira da América Latina, pedindo proteção e intercessão. Acendem velas na esperança resistente de revelar a verdade, juntando suas vozes e lágrimas num lamento coletivo. Rezam pelos filhos que a violência tentou apagar, mas que a memória insiste em manter vivos. As imagens são retratos formando um mosaico de olhares que não envelhecem. No coração, o tempo ficou suspenso.

A fé é feita de sobrevivência.

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