Sempre desejei que alguém me conhecesse de verdade. Os anos passaram e meus anseios continuaram. Uma busca eterna por outro ser humano que eu nem sabia se existia.
A casa abafada cheirava a mofo, madeira velha e abandono. As paredes tinham grandes frestas por onde se podia espiar o único cômodo com fogão, sofá e cama, onde dormíamos eu e minha mãe. A comida era pouca, mas eu sempre guardava uma parte para o Caraíva, meu melhor amigo.
Nos entendíamos apenas com o olhar. Como seres telepáticos, sabíamos o que cada um sentia. Quando eu adoecia ele ficava ao meu lado, não desgrudava nem por um momento. Muitas vezes eu engolia o choro, ao ouvir as palavras duras da minha mãe. Prestes a desabar, ele me consolava. Encostava sua cabeça na minha e as lágrimas escorriam.
Eu via minha mãe na companhia de muitos homens. Cada dia, cada hora, um diferente. Um dia espiei pelas frestas e vi a mãe gemendo. O homem em cima dela. Sufocando-a. Eu gritei:
— Mãe! Mãe! Sai de cima dela, moço.
— Cala essa boca, menina. Vai brincar, diaba! — gritou a mãe.
Levei uns tapas naquele dia. Nunca mais interrompi a mãe e seus gemidos.
— A gente precisa comer menina dos infernos. Só me atrapalha desde que nasceu.
Reclamava que estava velha para trabalhar. Que eu já tava na idade.
A última lembrança que tenho dela é me puxando pela mão. Me arrastando descalça pelo quintal. O chão de barro e pedras rasgando meus pés. Mais um dia quente e de fúria.
— Esse é teu novo lar menina! — falou a mãe ao me deixar na casa do Coronel Genival.
O Coronel me olhou como quem avalia uma mercadoria. Eu o encarei. Gordo, barrigudo, cabelo branco. Um terno de linho claro, impecável. É o que lembro.
A mãe foi embora. Eu fiquei.
A casa era farta. Eu ajudava nas tarefas e na preparação do almoço. Nunca vi tanta comida. Comia. Repetia.
— Esse é teu quarto, Morena — falou o Coronel, abrindo a porta de um quarto todo em rosa, cheio de bonecas.
Primeira vez que eu escutava meu nome. Primeira vez um quarto. Bonecas. Primeiras vezes…
Engordei, trabalhei, me senti feliz um tempo.
Caraíva andava pelas voltas, rondando a fazenda. Eu o alimentava escondido. Ele também engordou. Comia carne, banana, arroz. Se lambuzava.
Mas um animal sempre é engordado para o abate. Lembra de João e Maria?
Dois meses naquela casa e comecei a tomar corpo. Completei doze anos e meus seios cresceram.
O Coronel parava na porta do meu quarto todas as noites. Espiava pela fresta.
— Boa noite Morena! Durma com Deus.
Até que, uma noite, ele entrou no quarto. Respiração ofegante, hálito de charuto.
Senti o peso dele em cima de mim. Abriu as calças. Tirou minha calcinha.
— Não grita Morena. — falou como uma ordem, tapando minha boca.
Mas eu gritei.
E Caraíva ouviu.
Pulou a janela como um raio, furioso. Mordeu a bunda do Coronel, arrancando um naco. Rosnou. Me salvou.
Paramos no abrigo depois desse episódio. Ninguém mencionou nada sobre o Coronel Genival. Eu era apenas a menina mal educada com o cachorro feroz.
Vivemos tranquilos e protegidos um no outro pelos próximos anos.
Até o dia em que ele parou de respirar.
Deitei ao seu lado e afaguei seu corpo ainda quente.
Tudo o que eu busquei nos humanos, Caraíva me deu.
Meu primeiro amor. Meu porto seguro.
A beleza mais pura que já existiu.
Irretocável. Única.
Eterna.

