Árvore da Vida

Quando éramos crianças, Nikon e eu, costumávamos brincar próximos aos baobás. Diz a lenda que foi a primeira árvore que Deus criou. Minha avó nos contou que com seu robusto caule, poderia viver até seis mil anos.

Ficávamos sentados embaixo das árvores e pensávamos nos nossos antepassados. Antes de embarcarem nos navios negreiros, eles eram forçados a dançar em torno delas, fazendo o ritual do desenraizamento. Obrigados a deixar seus vínculos e memórias, perdiam todo referencial de humanidade para se tornar objeto na mão de alguém. Por isso, os baobás também se tornaram a árvore do esquecimento.

Mas Akon, eles nunca mais voltaram pra África? — perguntava meu irmão, quando eu contava a história do nosso povo.

A alma retornava, Nikon. Percorria longas distâncias, atravessando o Atlântico para reencontrar os ancestrais.

Crescemos ouvindo sussurros. Nikon dizia que eles falavam conosco, pedindo pra não esquecermos nossa ancestralidade.

O tempo passou como o vento entre as folhas. Nossas brincadeiras deram lugar ao silêncio dos compromissos.

Quando eu partir, Akon, me procure nas árvores com a cabeça pra baixo. — disse ele certa vez, com um sorriso que misturava promessa e presságio.

Anos depois, a seca chegou. Nossos animais morreram. Faltou alimento. Nikon partiu. Disse que seguiria caminhando para o leste, em direção ao nascer do sol.

Eu fiquei. Cuidando da avó, já muito idosa. Quando sentia saudades do meu irmão, visitava os baobás da infância.

Nunca mais o vi.

Alguns falam que o viram em outras terras, contando histórias sobre o nosso povo. Outros dizem que desapareceu no deserto, tragado pelo vento.

Mas às vezes, quando admiro o crepúsculo, sinto a presença dele perto de mim.

Escuto sua voz no vento:

Akon, as almas voltaram. Estou com elas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima