Você eu não sei, mas meu plano era comprar uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Padroeira dos povos de língua portuguesa, representação da Virgem Maria.
Procurei na Shopee, Mercado Livre. Uma imagem mais feia que a outra. Borradas, mal pintadas. Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora dos Nós, Nossa Senhora do Apocalipse. Tinha de tudo. Conceição? Cadê Conceição? Tortuosos são os caminhos da fé.
Procurei no Google: lojas esotéricas/religiosas em Porto Alegre.
Encontrei Shalom Cristais. Moinhos de Vento. Ótimo! Perto de casa. Se tem cristais, vende imagens.
— Bom dia, senhor! Em que posso lhe ajudar?
— Uma imagem, uns 20 cm, de Nossa Senhora da Conceição.
— Desculpa, senhor! Mas nossa loja só vende pedras e cristais.
— Mas não tem nenhuma imagem de Nossa Senhora? Nem no estoque?
— Não, senhor. Somente o que está exposto na loja.
Bati o cotovelo em uma ametista de uns 30cm. A pedra caiu no chão, espatifando-se em mil pedaços.
O atendente me fulminou com o olhar.
— Quebrou, pagou.
Saí dali descontente, cartão amaldiçoado, mas com fé de que iria encontrar.
Segunda opção do Google. Loja Esóterica Lumus, perto da Redenção. Aberta em horário de almoço. Milagre.
— Boa tarde! Posso lhe auxiliar?
— Só dando uma olhadinha…
— Se precisar, é só chamar.
— Hum… To vendo aqui. Buda, Ganesh, Índio Xamã, gato em madeira… nada de imagem religiosa.
— O Senhor busca o que especificamente?
— Eu preciso de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Presente pra minha mãe.
— Desculpe, senhor. Não temos.
— Mas a loja não é esotérica?
— Esotérica, senhor. Não religiosa.
— Mas tem vela, incenso. Vela não serve pra rezar?
— Serve, também. Mas no caso, nossas velas são aromatizadas. Pra perfumar e purificar o ambiente. Tem de mel, lavanda, citronela. Ah, e uns incensos ótimos Nag Champa, importados da índia. Recebemos também a coleção Noa, cem por cento artesanais. Tem Palo Santo, Orixás, Signos. Qual é o seu signo Senhor?
— Peixes. E a Conceição?
— Não temos, senhor. É só o que tem em loja.
E saí de lá carregado com cinco caixas de incenso Noa, — inclusive o de Peixes, — três velas aromáticas pro Buda, um Buda gordo sorridente e uma fonte de água com Ganesh, o Deus Elefante — tudo pra aquela criatura parar de falar da Índia.
Você eu não sei, mas eu ainda precisava da Conceição. Segui caminhando pelo bairro e me deparei com uma vitrine linda, em letras douradas: Cantinho da Paz. Entrei. Música ambiente, sino na porta, fumaça de incenso indiano no ar. O Buda que habita em mim… tossiu.
— Namastê! — saudou o monge zen.
— Namastê. Vi quem têm umas imagens na vitrine. Estou buscando uma da Nossa Senhora da Conceição.
— Temos Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora da Cabeça, Nossa Senhora Auxiliadora… e o Sagrado Coração de Jesus.
— E Conceição? Não tem?
— Temos essa, de 5 cm.
— Maior não tem?
— É só o que tem em loja, senhor!
— Nem no estoque?
— Já faleeei que não teeeemos!— gritou o monge surtado.
— Calma amigo! Namastê!
Ele inspirou. Respirou. Inspirou de novo.
— Deixa eu olhar no nosso sistema…
Saiu com passinhos de monge. E voltou, segurando ela. Conceição magnífica, 20 cm de pura arte sacra.
— Era isso que eu queria! Qual o valor?
— Mil reais.
— O quê? É de ouro?
— Resina Veronese senhor.
— Vero o quê?
— Veronese: resina com poliuretano, importada, pintada à mão.
— Não tem uma Conceição, 20 cm, sem vero?
— É só o que estáaaaaa na looojaaa! — disse o monge zen, já ficando vermelho.
— Olha, faz o seguinte — suspirei. — Me vê um daqueles chaveiros. Pode ser da Virgem Maria. No fim, é
tudo Nossa Senhora mesmo.

