Creio que foi o Ruy Castro quem disse que a crônica é uma mesa para dois. Cronista e leitor num mano a mano, de igual para igual, sem essa de palco e plateia, de quem joga e quem assiste ao jogo, sem área VIP, sem pedestal. E sendo a crônica o que é, imagino uma mesa de metal, dessas dobráveis, vermelhas ou azuis – dependendo da marca da cerveja, ou de quem é você num Grenal.
“Mentir para menos” é um bar com nove mesas. Em uma você vai encontrar humor e acidez; em outra, uma vulnerabilidade que desarma; naquela ali, do canto, o ordinário prestes a se revelar uma epifania. Sim, há uma denúncia social mais adiante. Uma narrativa sem censura. Um mergulho inesperado na filosofia. Um passeio pela imaginação. Uma surpresa, uma subversão, uma elegia. Vá de mesa em mesa, sem pressa, aberto a um dedo de prosa, à página cheia de poesia. O cara que mantém este boteco funcionando há muitos anos se chama Rubem. É ele quem cuida dos tira-gostos, do chope bem tirado, das sugestões do cardápio (renovado ano após ano). Foi dele a ideia do bar – do projeto à alvenaria, passando pela luz, pela música ambiente, pela temperatura ideal, pela fusão de literatura e boemia. É ele quem faz a harmonização, quem está ao mesmo tempo do centro da sala e por trás do balcão. Fica ali, invisível e onipresente: maestro, chef, curador, juiz de futebol – aquele que, quanto menos se nota, mais competente.
A poeta Orides Fontela escreveu:
Bendita a sede
por congregar-nos em torno
da fonte.
Bem dita, bem escrita – e que seja bem lida – a Santa Sede, por nos ceder um lugar à mesa de Anne, Adriane, Dóris, Bernadete, Kerwin, Milton W., Milton T., Márcio e Roberta. Se mentiram para mais ou para menos, é com você, leitor. Mas façamos de cada uma destas crônicas um brinde à literatura do cotidiano, à arte de partilhar a verdade particular, subjetiva, que nos torna mais humanos.
Eduardo Affonso – cronista






