Quanto vale a sua fé? Essa pergunta me assombrou depois de assistir a uma apresentação de George Carlin, humorista americano, conhecido por cutucar tudo aquilo que a gente finge que não vê. Ateu convicto, Carlin subiu ao palco com a sutileza de uma britadeira e disse, com todas as letras: “A religião é o maior papo-furado da história”. E não parou por aí. Segundo ele, a humanidade foi convencida de que existe um homem invisível no céu, que vê tudo o que fazemos, o tempo todo. Esse homem invisível teria uma lista de dez coisas que não quer que a gente faça — e se desrespeitarmos essa lista, Ele nos manda para um lugar com fogo, fumaça, tortura e angústia. Para sempre. Mas, calma: Ele nos ama. E precisa de dinheiro. É cômico. É trágico. É real. Logo pensei no Brasil. Não nos fiéis comuns — que, muitas vezes, buscam na religião apenas consolo, comunidade, algum sentido para a vida —, mas nos profissionais da fé. Aqueles que fazem da palavra de Deus um negócio tão rentável quanto a Bolsa de Valores. Um mercado espiritual com planos de salvação, transferência bancária e PIX. E aí me lembrei do documentário Apocalipse nos Trópicos, da Petra Costa. Lá está tudo escancarado: a fé usada como instrumento político. Não como inspiração ética, mas como ferramenta de dominação. A bancada evangélica, por exemplo, cresceu como fermento no Congresso Nacional. E entre os mais ativos está o pastor Silas Malafaia, que prega que “anjos não vão descer na Terra para melhorar o mundo” — então, segundo ele, cabe aos evangélicos transformar a política. Missão divina com objetivo de voto. E de poder, claro. Se Deus não desce, o fiel sobe. Sobe a rampa, sobe nos palanques, sobe nos gabinetes. E leva junto uma legião de seguidores que mistura Bíblia com urna eletrônica. Não estou aqui para atacar quem crê. Pelo contrário. Eu mesmo já li a Bíblia cinco vezes. O que me assusta é o uso que fazem dela. O modo como certas lideranças transformam um livro sagrado em panfleto político — e o púlpito, em balcão de negócios. Afinal, sempre tem alguém disposto a comprar um pedacinho do paraíso por apenas cem mil reais. E assim, a fé virou loteamento. Condomínio celestial com escritura invisível. Vai um terreninho aí? No fim das contas, a pergunta inicial permanece: quanto vale a sua fé? E, mais importante ainda: quem está lucrando com ela?

