O que resta de nós

No varal improvisado, três pequenos vestidos dançam ao sabor do vento. São leves, inocentes, quase como memórias que insistem em não se desfazer. A parede ao fundo, manchada pelo tempo, contrasta com o frescor da infância que as roupas evocam. Cada vestido carrega uma história: dias de brincadeira na rua, risadas que já ecoaram pela casa, pequenas aventuras que só crianças sabem o sabor que têm.

Ali, entre pregadores e arames, mora um silêncio que fala. Fala de quatro meninas, cada uma com sua boneca, posando para o fotógrafo. Poder-se-ia dizer, sem exagero, que são oito bonecas, tão lindas elas são. A terceira traz no joelho a marca de uma brincadeira perigosa que deixou sua perninha diferente. As quatro estão sérias, obedientes. No rosto das mais velhas, um sorriso de Monalisa.

Cada vestido carrega histórias invisíveis. O varal mostra que, mesmo nas coisas mais simples, há memórias esperando para virem à tona: o florido evoca a diversão nas festas de aniversário; o de botõezinhos, os primeiros passos, inseguros; o mais claro, a lembrança de um domingo, talvez. Mas um detalhe chama a atenção de quem passa pela rua: o número de vestidos não corresponde ao número de meninas.

O vento, cúmplice discreto, leva e traz lembranças. Balança o pano como quem sacode a poeira dos dias e devolve ao presente aquilo que parecia esquecido. O que vemos são apenas roupas.  O que sentimos é a vida inteira que já se vestiu delas. E assim, enquanto o mundo corre lá fora, elas seguem ali – roupas ao vento – bordando lembranças no tecido invisível do tempo. A quarta menina, a mais nova delas, cujo vestido falta no varal improvisado, decidiu, aos 50 anos, que não queria mais ser boneca, nem filha, nem mãe, nem tia, nem esposa, nem nada. Ela quis virar estrela. Seu nome? Stela. Sem ela, o que restou em nós foram as lembranças que nem o tempo, nem a memória conseguem desfazer.

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