O doce sabor do saber

Na Ilha das Flores, onde o vento sopra histórias que o mundo insiste em não ouvir, caminhos de terra se enchem de passos leves: os de uma criança correndo, os de uma mulher seguindo adiante, os de cães fiéis que vigiam o silêncio. A cena poderia ser apenas um instante — mais um entre tantos —, mas para mim, que lecionei ali por vinte anos, ela é memória viva. É como se a própria ilha respirasse pelas frestas dessa fotografia: o céu pesado, as casas improvisadas, a poeira que sobe, a esperança que insiste.

Por onde andam os alunos a quem ensinei o caminho das letras? Alguns talvez caminhem por ruas parecidas com esta; outros, quem sabe, tenham encontrado avenidas largas onde o saber abriu portas. Há os que escrevem, cantam, constroem, e os que ainda dormem sonhando — às vezes em plena aula, porque o sonho, naquele tempo, ganhava dos cadernos. Vai ver a aula era ruim. Ou o sonho era maior. Mesmo assim, seguíamos. Eu, eles, a ilha inteira. Porque “o conhecimento liberta”, dizia Platão, e eu repetia como quem oferece um doce raro: o doce sabor do saber.

Lembro-me de um aluno em especial. Duas décadas atrás, era uma pessoinha doce que só. Não enxergava direito; vivia numa espécie de neblina particular. Precisava urgentemente de óculos. Fizemos uma vaquinha — professores sabem invocar milagres — e, de repente, Fiat Lux! A luz entrou nos olhos do menino e, com ela, o mundo. A leitura veio rápida, a escrita mais ainda. A periferia tem disso: solidariedade. Talvez o pobre enxergue melhor a dor do outro justamente porque caminha sobre dores que também são suas. Ali, entre casas de madeira torta e chão esburacado, a empatia era pão partilhado.  Nestes vinte anos, encontrei outros alunos. Alguns venceram; outros nem tanto. A pandemia nos irmanou, névoa e farol ao mesmo tempo. E seguimos lutando: escolas, professores, pais, a comunidade inteira. Nem sempre fazemos gente, vida e sonhos — às vezes fazemos apenas prédios. E não basta levantar muros se não levantamos pessoas.

Há obstáculos no meio do caminho — a fome, essa velha inimiga, é um deles. E como cansa nadar contra a maré! Há quem desista porque pensa ter mais o que fazer. Não pensar, afinal, é tão mais fácil. O alienado talvez seja mais feliz. Que tristeza aceitar isso como verdade. Cem anos atrás, a escola não era para mulheres, negros, pobres. Hoje ainda há quem seja contra as cotas, como se o saber tivesse dono. Mas o conhecimento é libertador — e liberdade é direito de todos. O mito da caverna ainda se repete: sombras projetadas nos barracos, nas vielas. Cabe ao mestre transformar sombra em luz, dar asas a quem ainda não aprendeu a voar. A fotografia da Ilha das Flores me olha como se perguntasse: e agora? Vejo na mulher caminhando, na menina correndo, nos cães atentos, algo que sempre encontrei em meus alunos: a força que nasce apesar de tudo. A vida fazendo vida. O sonho fazendo sonho. Como na canção: tem gente que faz gente, que faz vida, que faz sonho.

E eu sigo acreditando — porque vi acontecer — que, na mão do artista, o lápis vira desenho; na mão do professor, o giz vira farol. E onde há farol, mesmo num terreno de lixo, lama e silêncio, sempre haverá caminhos. Sempre haverá asas.

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