Diário de um favelado

27 de outubro

Hoje amanheceu chovendo. Ontem caiu água como se o céu tivesse raiva da terra. Foi tempestade de verdade: trovão, raio e vento. Quando chove, o céu chora. E eu choro junto. Mas às vezes fico alegre, porque a chuva lava o chão, as folhas, e até a alma. Só é ruim quando vem demais, que aí vira enchente e tudo fica caro no mercado. A gente quer comprar o de comer e o dinheiro não dá.

28 de outubro

Acordei cedo. Eu sempre acordo cedo, antes do sol. Tenho que pegar dois ônibus e o trem pra chegar na obra. A construção cansa o corpo. A pobreza cansa a vida. Sou ajudante de pedreiro. Dizem que tem um tal de Chico que canta as dores do pobre. Eu nunca ouvi a música dele. Mas deve ser bonita, porque é difícil cantar a dor e ainda fazer o povo ouvir.

29 de outubro

A cidade já tá se arrumando pro Natal. Mas antes vem a festa das bruxas, o tal de Halloween. Pesquisei no dicionário pra saber como escreve. Dizem que o dicionário é o pai dos burros. Eu acho que é o pai dos sabidos. Porque quem lê aprende. Só as palavras de língua estrangeira é que são danadas — precisa de outro livro pra traduzir. Meu filho tem um. Peguei emprestado e achei a palavra certinha.

30 de outubro

As vitrines já piscam com luz de Natal, mesmo sendo outubro. O povo das lojas quer ganhar o deles.
No Natal, lá na firma, a gente ganha uma cesta básica. Minha mulher faz uma ceia, se é que aquilo é ceia. Os meninos gostam. Comem bem e riem. O mais velho pediu uma bicicleta. Eu disse pra escrever pro Papai Noel dos Correios, porque o pai dele não tem dinheiro pra isso. O mais novo pediu uma bola. Quer ser jogador. Deus te ouça, meu filho. Quem sabe você chuta a miséria pra longe.

31 de outubro

Na hora do almoço eu escrevo na minha caderneta. Os colegas riem e perguntam pra quê. Eu digo que é pra aliviar a alma. Escrever é como respirar: a gente põe pra fora o que pesa por dentro. Não sei se alguém vai ler o que escrevo, mas não faz mal. Eu escrevo pra mim. Gosto de ler também, mas meus olhos andam fracos. Deve ser o tempo, ou a vida, que anda me embaçando a vista.

1º de novembro

Lá no Rio o bicho pegou. A polícia matou um monte de gente. Uns botam a culpa no presidente. Dizem que ele vai se eleger de novo, pela quarta vez. Mas quem foi que soltou as armas na rua? O outro, né? E tem o tráfico, que é bicho que não morre nunca. Tem tráfico de tudo: de droga, de ouro, de gente.
O mundo anda virado. E nós, os de baixo, seguimos carregando peso e calando a boca. Só o Chico canta por nós. Pena que muitos não entendem o que ele diz — mas eu entendo.

2 de novembro

Hoje é Dia de Finados. Feriado. Fiquei pensando nos mortos do Rio. Aqui também morre pobre todo dia, só que ninguém noticia. Amanhã pode ser eu, ou meus filhos. Mas ainda tenho fé que um dia a gente sai dessa vida dura. E que o tal Chico, lá de onde estiver, escreva uma música alegre pra nós — pra que, mesmo em dia de chuva e raio, a gente possa ser um pouco feliz.

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