Mãe, hoje te escrevo como quem faz uma prece. Palavras saem de mim como flores do jardim que tanto amavas: rosas de perfume intenso, margaridas simples e fortes como a tua vida. Lembro-me de ti na igreja, rezando a missa com devoção, pedindo a Deus forças para sustentar os nove filhos que te rodeavam como um rosário de esperança. Dois partiram cedo demais. No velório da filha, teus trêmulos lábios sentenciaram: “Como é bonita!”; no do filho: “Bandidos!”. Sei que essas ausências deixaram uma sombra no teu coração, mas não conseguiram apagar tua gargalhada tão cheia de alegria, que tudo curava e que nos lembrava que a vida, apesar da dor, ainda merece ser celebrada. Vejo-te ao lado do pai, jogando cartas depois da lida, como se o tempo pudesse se deter para assistir à cumplicidade de vocês e as brigas, também, às vezes, quando ele perdia pra ti no jogo. O som das peças batendo na mesa se misturava ao cheiro de comida boa que vinha do fogão à lenha. Isso fazia da nossa casa um altar de calor e fartura, embora nem sempre tenha sido assim. Houve tempos de miséria, sofrimento e trabalho. Mas tua fé era maior do que qualquer contratempo. Entre rezas, cantigas e ditados populares, entre lágrimas e gargalhadas, construíste um lar onde até as dores se ajoelhavam diante de tua coragem. Tu foste uma mulher à frente do teu tempo, mas, infelizmente, não pode mudar muitas coisas. E, por isso, choravas. Quando a doença chegou, a morte fez sua pequena entrada. Houve instantes de luz como se Jesus abrisse uma porta. O médico disse que eram dias de despedida. Na cama do hospital, minhas mãos se entrelaçaram às tuas. Eu cantava pra ti, em italiano, as músicas que nos ensinaste e que embalaram nossa infância. Num ímpeto, tu te levantaste um pouco, como se alguém te puxasse. Abriu os braços num abraço, e em oração, profetizou: “Vou pro céu”. Em seguida, adormecemos. Tu, para sempre. Eu para continuar a jornada até o dia do nosso reencontro. Hoje te escrevo, mãe, não para te contar novidades, porque, ali do céu, tudo vês e tudo sabes. Hoje te escrevo, mãe, para te agradecer por cada missa, cada prece, cada flor, cada prato fumegante, cada gargalhada. Tudo continua aceso em mim, como um eterno rosário de lembranças sobre a tua cabeceira.
Até um dia!

