O lugar onde nasci guarda segredos irrevelávies sobre crimes, traições, assombrações. É um lugarejo bonitinho, meia dúzia de casas numa colônia que já foi italiana. Cidadezinha sem graça, quase nenhuma arquitetura, a não ser a da natureza. Não há edifícios. Quando criança, ouvia minha mãe contar que um tio dela, morador de um cafundó, homem inteligente e visionário, profetizava que, no futuro, vizinhos morariam em casas umas sobre as outras, mas mal se conheceriam. Que pessoas não só poderiam conversar a distância, como também se veriam através de telas. É. Parece que esse dia chegou. A cidade- cafundó é muito diferente da selva de pedra. Mas ambas guardam segredos.
A cidade-concreto desperta em preto e branco, como se alguém tivesse apagado as cores para destacar o peso das formas e a altura das paredes que tocam o céu. Os prédios, altivos, parecem colunas de uma catedral moderna, guardiões de vidro e concreto que observam, silenciosos, a pressa dos transeuntes. Há algo de solene no encontro das ruas, algo que mistura o passado das fachadas antigas com a insolência vertical das torres recentes.
Nas curvas suaves das avenidas, carros fluem como rios de metal, obedientes ao compasso invisível do tempo urbano. Os postes de luz, com suas esferas de vidro, lembram sentinelas que, mesmo sob o sol, insistem em permanecer acesas na memória da noite. São olhos fixos, sempre atentos, testemunhas da pressa, dos encontros, dos segredos e das solidões que se cruzam sem se deter.
Um homem apoia-se na mureta. Não olha para ninguém, mas guarda no rosto um silêncio que conversa com o horizonte. Ao lado, outro se senta, descansando do peso da cidade ou de si mesmo. E, entre eles, a vida segue: passos apressados, vozes entrecortadas, o rumor constante de motores e buzinas que compõem a trilha sonora desse palco imenso.
Em meio ao cinza da cidade, um detalhe invisível se move: o coração de quem passa pulsa como se buscasse uma fresta de cor, uma pausa breve, um instante de respiro. Talvez seja isso o que as cidades nos ensinam: a caminhar entre gigantes de pedra sem perder a capacidade de sonhar com o azul que se esconde além das linhas retas.
E assim, cada janela se torna promessa, cada esquina, reinício. A cidade, com sua pele de concreto, segue viva, não pelo que se ergue no alto, mas pelo que resiste embaixo — ali, as pessoas, anônimas e breves, deixam rastros invisíveis que nunca se repetem. Esse lugar tem pouco de natureza. E guarda segredos inconfessáveis.


Oi!
Li teu texto e gostei da forma como conseguiste humanizar a cidade de concreto.
Quando vi a foto, passaram algumas ideias na minha cabeça, todas negativas sobre essa selva de pedra que rouba a natureza e nossa humanidade.
No entanto, teu texto me surpreendeu e me fez olhar pelas “frestas” que esses monstros de concreto não conseguem tapar.
Baiard