Vejo Flores

Vejo flores improváveis na casa  cheia de lama. E se toda a água do mundo virar lama? Como salvar a dignidade de meninas que acabaram de ganhar vestidinhos coloridos para homenagear as mães na festinha da comunidade?

A comunidade tinha, sim, um local para os momentos festivos, de acolhida, aprendizado. A convivência diária, ou quase, fazia do lugar um refúgio. Onde está? A água não lavou, pelo contrário, uniu-se à terra e, juntas, num arrasto, mostraram que ali sempre foi seu lugar. Indomável, retomou seu curso, na marra. Passou, foi embora e, como todas as mazelas,  voltará sempre e sempre. Dê um jeito, seu Prefeito, aplaca nossa dor, Governador. Esteja presente, Presidente. Nenhum versinho de rimas pobres como essas limpa corpos e almas, o que a lama sujou.

Roupa suja se lava em casa e não importa aos de fora. É muito pedir água limpa? É muito sonhar com vestidinhos floridos, versinhos com rima pobre, porque pobres somos?

A festa não vai acontecer este ano. Quem sabe, quando tudo secar, mamãe consiga trazer de volta as cores, as flores e aí será Primavera. Pro ano, no outono, a festa vai acontecer e a lama não será convidada. Será que os vestidinhos vão encolher, ou a gente crescer? Ouvi dizer que quando paramos de usar fraldas, as roupinhas voltam a servir, por um tempo. Então, o figurino da menorzinha está garantido. A do meio sempre pode herdar o meu e, num ciclo interminável, os maiores vão ajudando os menores. Será? Quem vai cuidar da vovó, que parece encolher a cada dia, a cada chuvarada? A chuva, depois a lama e enfim, o pó. Demora a volta  das cores vivas;  os colchões encharcados foram parar no rio. Os novos chegaram. Não sei de onde e nem importa: são floridos.

Vida no seu curso,  casa  limpa, pintada,  móveis trocados e água andando por caminhos seguros. O rio de volta ao leito. Engraçado chamar o caminho do rio assim. Será que o rio sonha quando está no leito? Então, quando tem um pesadelo, salta de lá e procura se abrigar em nossa cama, encharcando colchões?

Vejo flores improváveis desabrochando aqui e ali e, como dizia a Dona Deolinda: cada coisa em seu lugar, poupa tempo e muito falar.

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